RÁDIO BPA

TV BPA

O ocaso de Marcelo Bielsa: quando o personagem ultrapassa a genialidade

O ocaso de Marcelo Bielsa: quando o personagem ultrapassa a genialidade

Uruguai x Espanha – Melhores Momentos
Artboard 1MENOR DESTAQUEArtboard 1MENOR DESTAQUEArtboard 1MAIOR DESTAQUEHabilitar ViewportPlayAté onde vai o gênio e começa o personagem? A eliminação do Uruguai para a Espanha na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 colocou Marcelo Bielsa no centro da maior crise de sua carreira.Foi a terceira Copa do Mundo de Bielsa. Em dez partidas, venceu apenas três. Em 2002, caiu ainda na primeira fase com uma Argentina que reunia Gabriel Batistuta, Juan Sebastián Verón, Hernán Crespo e Javier Zanetti. Em 2010, levou o Chile às oitavas de final, mas foi dominado pelo Brasil de Dunga. Agora volta a dar vexame, mas dessa vez, com exposições duras sobre sua maneira de trabalhar. Artboard 1MENOR DESTAQUEArtboard 1MENOR DESTAQUEArtboard 1MAIOR DESTAQUEHabilitar ViewportPlayDe polêmica, ele entende. Foram muitas nos 40 anos de carreira em que gozou um status de gênio da bola, mas com resultados muito ruins em campo. A contradição lhe rendeu o apelido de “loco Bielsa” e ficou famosa após seu ciclo na seleção argentina: em 2002, Bielsa desembarcou na Copa do Mundo como favorito ao título. A Argentina liderava o ranking da FIFA, havia conquistado as Eliminatórias com folga e contava com um elenco que reunia Batistuta, Hernán Crespo, Juan Sebastián Verón e Zanetti. Caiu ainda na fase de grupos, jogando mal contra a Suécia e nem vendo a cor da bola contra a Inglaterra.Eiminação do Uruguai para a Espanha expõe o maior paradoxo de Marcelo Bielsa: um treinador que mudou a forma de jogar futebol, influenciou uma geração inteira e, mesmo assim, construiu uma carreira marcada por poucos títulos, conflitos e sucessivas frustrações. A e a colocam Marcelo Bielsa diante do momento mais delicado de sua carreira. O treinador deixa o Uruguai após um ciclo que começou com vitórias históricas, passou por uma ruptura com o elenco e terminou sem conseguir repetir em campo o futebol que prometia. Foi a terceira Copa do Mundo de Bielsa. Em dez partidas, venceu apenas três. Em 2002, caiu ainda na primeira fase com uma Argentina que reunia Gabriel Batistuta, Juan Sebastián Verón, Hernán Crespo e Javier Zanetti. Em 2010, levou o Chile às oitavas de final, mas foi dominado pelo Brasil de Dunga. Agora, sequer conseguiu levar o Uruguai ao mata mata. O início indicava outro caminho. Em novembro de 2023, o Uruguai venceu Brasil e Argentina nas Eliminatórias e recuperou protagonismo com uma equipe intensa, agressiva e vertical. A partir da Copa América de 2024, porém, o rendimento caiu. As vitórias rarearam, o time perdeu força e as críticas aumentaram. A crise deixou de ser apenas esportiva quando Luis Suárez rompeu o silêncio. O atacante afirmou que o ambiente havia se deteriorado, criticou a relação de Bielsa com o elenco e expôs um vestiário dividido. Depois vieram relatos de outros jogadores e o desgaste passou a ser público. A relação com a imprensa também piorou. Bielsa respondeu entrevistas com poucas palavras, evitou explicações e virou assunto ao aparecer olhando para o chão na foto oficial da Copa do Mundo. Segundo o portal uruguaio El Espectador Deportes, o ambiente explodiu antes da partida contra a Espanha. Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde pediram uma reunião para solicitar mudanças na forma de jogar e nos treinamentos. Defenderam um time mais compacto, jogando em bloco baixo e explorando contra ataques. Também reclamaram da intensidade dos treinos, afirmando que alguns atletas chegaram lesionados ao Mundial. Bielsa recusou a proposta, manteve o plano de perseguir individualmente os espanhóis, admitiu que convocou jogadores machucados por confiar neles e viu parte do elenco abandonar a reunião antes do fim. Ronald Araújo resumiu o ambiente com uma frase dirigida ao treinador: “Deus queira que passemos de fase, mas ninguém aguenta mais.” Nada disso apaga sua importância para o futebol. Desde os tempos de Newell’s Old Boys, Bielsa fez do estudo do jogo sua principal ferramenta. Percorreu a Argentina observando jogadores, acumulou milhares de vídeos para análise e influenciou uma geração de treinadores. Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e Diego Simeone sempre o apontaram como uma referência. O problema é que sua influência passou a ser maior que seus resultados. Pressão alta, perseguições individuais, intensidade sem bola e ocupação agressiva dos espaços deixaram de ser exclusividade de Bielsa. Os principais clubes do mundo incorporaram esses conceitos e passaram a adaptá los aos elencos disponíveis. Bielsa permaneceu fiel ao próprio modelo. Os conflitos também atravessam sua carreira. Dirigentes, jornalistas e jogadores relataram dificuldades de convivência em diferentes clubes e seleções. O próprio treinador reconheceu isso após uma goleada sofrida para os Estados Unidos, quando se definiu como um “perfeccionista tóxico”, incapaz de aproveitar as vitórias porque enxerga primeiro os erros. É justamente aí que nasce o debate sobre seu legado. Bielsa costuma ser tratado como um gênio incompreendido, um treinador cuja grande obra estaria na influência exercida sobre outros técnicos. Mas, enquanto seus discípulos acumularam títulos, ele encerra quase quarenta anos de carreira com apenas quatro conquistas relevantes, passagens interrompidas por desgaste e uma sequência de trabalhos que raramente terminaram como começaram. Poucos treinadores ensinaram tanto sobre futebol. Poucos entregaram tão pouco em relação ao prestígio que construíram. Talvez seja essa a maior contradição de Marcelo Bielsa.
Até onde vai o gênio e começa o personagem? A eliminação do Uruguai para a Espanha na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 colocou Marcelo Bielsa no centro da maior crise de sua carreira.
Foi a terceira Copa do Mundo de Bielsa. Em dez partidas, venceu apenas três. Em 2002, caiu ainda na primeira fase com uma Argentina que reunia Gabriel Batistuta, Juan Sebastián Verón, Hernán Crespo e Javier Zanetti. Em 2010, levou o Chile às oitavas de final, mas foi dominado pelo Brasil de Dunga.
Agora volta a dar vexame, mas dessa vez com uma inédita exposição sobre uma forma de gerir pessoas, montar treinamentos e tomar decisões dignas de treinadores com muito menos glamour e mais críticas na carreira.
+ 😳 Bielsa se irrita e dá grito bizarro em entrevista; veja o vídeo
+ Goleiro do Inter foi um dos líderes de rebelião contra Bielsa
+ Jornais do mundo destacam falha de Muslera em queda do Uruguai
+ Frango de Muslera e pancada de Canobbio em Cucurella geram memes
Marcelo Bielsa, do Uruguai, posa com a cabeça para baixo em foto oficial da Fifa
Michael Regan – FIFA/FIFA via Getty Images
Em novembro de 2023, o Uruguai venceu Brasil e Argentina nas Eliminatórias e recuperou protagonismo com uma equipe intensa, agressiva e vertical. Mas Luis Suárez foi o primeiro a romper o silêncio. Sfirmou que o ambiente havia se deteriorado, criticou a relação de Bielsa com o elenco e expôs um vestiário dividido.
O desgaste passou a ser público. Bielsa respondeu entrevistas com poucas palavras, evitou explicações e virou assunto ao aparecer olhando para o chão na foto oficial da Copa do Mundo. O ciclo mostrou erros básicos com alguém com 40 anos de bagagem, final de Libertadores com Telê Santana e admiração de gente do quilate de Pep Guardiola, Mauricio Pocchetino e Jurgen Klopp.
O estopim da crise
Segundo o portal uruguaio El Espectador Deportes, o ambiente explodiu antes da partida contra a Espanha. Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde pediram uma reunião para solicitar mudanças na forma de jogar e nos treinamentos. Defenderam um time mais compacto, jogando em bloco baixo e explorando contra ataques.
Bielsa manteve o plano de perseguir individualmente, admitiu que convocou jogadores machucados e viu parte do elenco abandonar a reunião antes do fim. Ronald Araújo resumiu o ambiente com uma frase dirigida ao treinador: “Deus queira que passemos de fase, mas ninguém aguenta mais.”
Bielsa perde a paciência em entrevista após eliminação do Uruguai
Uma carreira de genialidade em coletivas e poucos títulos
Nada disso apaga sua importância para o futebol. Desde o Newell’s Old Boys, Bielsa fez do estudo do jogo sua principal ferramenta. Percorreu a Argentina observando jogadores, acumulou milhares de vídeos para análise e influenciou uma geração de treinadores. Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e Diego Simeone sempre o apontaram como uma referência.
Mas o pensamento rebuscado de Bielsa, com anedotas filosóficas e coletivas apaixonantes sobre o jogo como instrumento social, jamais encontraram títulos para validar a teoria na prática. Foram 13 clubes e seleções treinadas com apenas três títulos oficiais: dois na década de 1990 e a segundona inglesa pelo Leeds em 2019/20, seu grande trabalho na carreira.
Guardiola cumprimenta Bielsa após o empate entre Leeds e Manchester City
Reuters
Vale citar o trabalho no Athletic Bilbao. Entre 2011 e 2013, Bielsa viveu um dos melhores momentos da carreira. Com um elenco sem grandes estrelas, levou o clube às finais da Copa do Rei e da Liga Europa, eliminando Manchester United e Schalke pelo caminho. Foi o primeiro time a fazer o Barcelona de Guardiola ter menos posse de bola em 3 anos.
Pressão alta, perseguições individuais, intensidade sem bola e ocupação agressiva dos espaços sempre foram preceitos desse profundo conhecedor do jogo, leitor voraz e apaixonado pelo futebol. Mas numa Copa do Mundo ou num clube, o que realmente importa não é a paixão ou anedota filosófica numa coletiva de imprensa: é o trabalho realizado.
Guardiola, quando treinava o Barcelona, encontra Marcelo Bielsa, então técnico do Atlético de Bilbao, em 2012
REUTERS/Albert Gea
Saídas polêmicas, críticas em excesso: ser treinador também é ser humano
Em 2016, abandonou a Lazio apenas dois dias após ser anunciado. No Lille, em 2017, afastou jogadores experientes, entrou em conflito com dirigentes e viu o time afundar na zona de rebaixamentoE m 2015, no Olympique de Marselha, rompeu publicamente com a diretoria após a venda de Lucas Mendes, afirmando que a negociação ocorreu sem seu conhecimento.
O trabalho era bom, com a quarta colocação no Campeonato Francês. Mas precisava desse comportamento tão explosivo?
Dirigentes, jornalistas e jogadores relataram dificuldades de convivência em diferentes clubes e seleções. O próprio treinador reconheceu isso após uma goleada sofrida para os Estados Unidos, quando se definiu como um “perfeccionista tóxico”, incapaz de aproveitar as vitórias porque enxerga primeiro os erros.
Eu sempre digo uma coisa: eu sou tóxico. Se relacionar comigo piora quem está comigo. Existem pessoas tóxicas, que só veem erro, que vivem corrigindo, que exigem, que nunca estão satisfeitas e que só falam de trabalho. Eu vivo isso como um karma, entende?
Se você já fez uma entrevista de emprego, provavelmente ouviu alguém dizer que seu maior defeito é o perfeccionismo. Muitas vezes, a resposta serve para suavizar características como inflexibilidade, dificuldade em delegar, excesso de cobrança ou incapacidade de lidar com opiniões divergentes.
Talvez aí esteja a fronteira entre o gênio e o personagem.
Porque o futebol é um esporte de seres humanos. Ao demonstrar tamanha inflexibilidade, Bielsa parte da premissa de que sua visão é suficiente. Fecha espaço para o contraditório, transforma divergências em conflitos e reduz a capacidade de se adaptar ao contexto.
É como se ele negasse o próprio jogo de futebol, que precisa de adaptação constante e que não é algo que o treinador pode controlar: é algo que os jogadores podem decidir. O treinador é um mero mediador, um mero gestor de pessoas. Gestão essa que envolve a tática, a técnica, o físico e o emocional.
Marcelo Bielsa em coletiva depois de Uruguai x Espanha
Manuel Velasquez/Getty Images
Bielsa parece uma caricatura de si ao olhar para baixo, responder vagamente e se manter em silêncio. Uma anedota de quem foi, tão grandioso ao apontar problemas, mas tyão pobre ao reconhecer a si príporio como o problema.
Chance de reflexão para quem refletiu tanto sobre o jogo. Agora, a reflexão ‘
Mais Lidas geRead More