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Uruguai: não há time, nem camisa, que sobreviva à dupla Bielsa e Muslera

Uruguai: não há time, nem camisa, que sobreviva à dupla Bielsa e Muslera

Uruguai 0 x 1 Espanha | Melhores momentos | Grupo H | Copa do Mundo 2026
O mais irônico, quase desesperador, é que o Uruguai superou as expectativas. Pelo menos as minhas, em relação ao desempenho mostrado. Porque, sob o comando claudicante de Bielsa e com um elenco insuficiente, a Celeste chegava à Copa do Mundo como a seleção sul-americana mais frágil.
O Uruguai mostrou um futebol decente nas duas primeiras partidas, na estreia contra a Arábia Saudita e depois diante de Cabo Verde, que protagoniza a grande história da Copa, mas não conseguiu somar mais que dois pontos. Em especial no segundo tempo contra os sauditas, a equipe teve produção ofensiva para alcançar um resultado melhor.
Contra a Espanha, o time uruguaio voltou a surpreender. Inclusive, merecia estar vencendo a apática seleção europeia quando Muslera surgiu para interferir de forma dramática no destino do paisito. O arqueiro de 40 anos, que já havia falhado nos primeiros jogos, enrolou-se com um chute fraco de Baena e adquiriu a consistência de um guardanapo molhado enquanto a bola morria nas redes. O único chute minimamente perigoso da Espanha em todo o jogo.
Muslera aceita chute de Baena em Uruguai x Espanha
Reuters
Mais determinante que o efeito Muslera é o trabalho insuficiente de Marcelo Bielsa, o técnico cuja aura é diametralmente oposta aos resultados que alcança. Mas a influência negativa do treinador não se restringe ao campo. O Uruguai chegou à Copa do Mundo na forma de um barril de pólvora enviado diretamente da margem oriental do Rio da Prata.
Após falhar, Muslera pediu para dar lugar a Rochet no intervalo. Ao ser substituído, o capitão Valverde saiu mastigando marimbondos. Na véspera do jogo, quatro líderes do grupo foram porta-vozes de uma rebelião contra Bielsa, reclamando da carga de trabalho e mostrando contrariedade com a estratégia de jogo, episódio que no futuro talvez seja conhecido como o Levante do mate amargo. E tudo isso em questão de horas.
Mas não é de hoje que o doce de leite azedou. A relação entre o técnico e os jogadores se deteriorou há muito tempo. Em 2024, o descontentamento foi manifestado publicamente por Luis Suárez. O técnico sequer cumprimentava os atletas e chegou a colocar Canobbio para servir de gandula nos treinos. Mesmo assim, a federação uruguaia resolveu apostar na continuidade de um projeto que dava todos os sinais de caminhar para o fracasso.
Marcelo Bielsa em coletiva depois de Uruguai x Espanha
Manuel Velasquez/Getty Images
E não um fracasso qualquer, mas um fracasso exposto aos holofotes. Porque o lado narcisista de Marcelo Bielsa não se contenta com o insucesso protocolar. Após o jogo, declarou: “Não deixo nada ao futebol do Uruguai”. Quase como um mártir, afinal tem que dar alguma satisfação excêntrica ao séquito que há décadas desdobra-se para enaltecer o personagem.
“Eu sou tóxico. Se relacionar comigo piora quem está comigo”, declarou Bielsa em novembro, após sofrer goleada de 5 a 1 para os Estados Unidos. De fato, a seleção uruguaia parece ter sofrido desses efeitos nocivos, dentro e fora do campo. E o resultado é que a Celeste é a primeira seleção sul-americana a voltar para casa, não apenas derrotada em campo, mas consumida pelo incêndio que alimentou nos últimos três anos.
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