Opinião: Portuguesa quebra tabu, espanta fantasma e ganha chance de crescer para sonhar
Portuguesa 1 x 0 Sampaio Corrêa-RJ | Gol | 2ª fase (volta) | Brasileiro Série D 2026
Segundo tempo. 47 minutos. Faltando três para acabar. 0 a 0. Jogo indo para os pênaltis. Portuguesa no ataque. Lateral pela esquerda. Perto da bandeira de escanteio. Lucas Hipólito toma distância. Muita. Só não mais porque o alambrado não permite.
O árbitro manda cobrar. Hipólito avança, toma impulso e lança. Manda a bola no bico da pequena área. Dois zagueiros do Sampaio Corrêa-RJ marcam Thiago Rubim. Cadorini se infiltra por trás deles, sem perceberem. Sobe. Resvala de cabeça.
A bola vai morrer caprichosamente no canto esquerdo baixo da meta do Sampaio Corrêa-RJ. Sem chances para defesa. A rede balança calmamente. Senha para a explosão da torcida rubro-verde, concentrada do lado oposto do Canindé.
Gol que desempata não só o jogo, mas o mata-mata da segunda fase da Série D. Em Saquarema, no Rio de Janeiro, 1 a 1. No Canindé, em São Paulo, com esse gol de cabeça de Cadorini, 1 a 0. No agregado, 2 a 1. Lusa classificada à terceira fase.
Um gol para dizimar os traumas e tabus. Não, dessa vez não houve milagre do goleiro adversário. Não, dessa vez não foi a Portuguesa que tomou um gol nos descontos. Não, dessa vez o “latereio” não foi inútil como em tantas outras oportunidades.
Não, dessa vez a torcida não vai reclamar que a Lusa perdeu um gol feito. Não, o ano rubro-verde não terminou em pleno primeiro semestre. Não, o sonho do acesso não naufragou no primeiro embate direto. Não, o Canindé não presenciou outra frustração.
Um lateral. Uma cabeçada. Um gol. O suficiente para levar a Portuguesa ao segundo dos quatro mata-matas que precisa superar para conquistar o acesso à Série C. Um respiro. Um fôlego. Um alívio. Uma nova chance para perseguir o objetivo.
Agora, finalmente, sem aquele trauma de que no Canindé mata-mata nunca dá certo. Foi assim em 2021. Foi assim em 2025. Mas não foi assim em 2026. Uma classificação que precisa ser encarada como uma virada de chave. Na bola ou na mentalidade.
Portuguesa x Sampaio Corrêa-RJ, Brasileirão da Série D
Victor Bessa / Portuguesa SAF
A Série D é um campeonato nivelado. Por baixo, sim, mas nivelado. Não seria fácil. Como não será contra qualquer adversário daqui em diante. No entanto, também é verdade que não precisava ter sido tão difícil. Não era necessário tanto sufoco.
Seja porque no jogo de ida a Lusa poderia ter, sobretudo no primeiro tempo, construído uma vantagem segura. Seja porque na partida de volta a atuação ficou bem aquém. Não só aquém do esperado, mas aquém do necessário a qualquer fase de mata-mata.
O técnico Ademir Fesan não promoveu mudanças na escalação titular de um jogo para outro: Bertinato no gol; João Vitor na lateral direita e Salomão na esquerda; Botteghin e Carlos Lima no miolo de zaga; Portuga, Thiaguinho e João Diogo no meio; no ataque, um trio formado por Igor Torres de um lado, Toró de outro e Cadorini centralizado.
Quem acompanhou a fase de grupos rubro-verde não se surpreendeu ao ver a Portuguesa ter dificuldades para enfrentar um time marcando em linha baixa. O Sampaio Corrêa-RJ veio, como óbvio, bem fechado e bem recuado.
A Lusa, quase sempre com a bola, rodava de um lado para outro, mas não conseguia arrematar e levar perigo algum. Diante de uma defesa bem postada, o toque de bola dos comandados por Ademir Fesan era infrutífero. Restavam tentativas de chuveirinho.
Foi uma sucessão de tentativas de jogada de fundo para cruzar à área. A maioria, porém, sem nem conseguir fazer a bola chegar à frente do gol. Uma insistência enorme de entrar na área com a bola. Uma resistência igualmente grande em finalizar de longe.
Se pelos lados não encontrava caminho, pelo meio a Portuguesa mais uma vez sofreu para criar algo. Afinal, em razão da saída de bola prejudicada de Botteghin e Calos Lima, o único jogador mais técnico do setor, Portuga, fica preso à dupla de zaga.
Portuguesa x Sampaio Corrêa-RJ, Brasileirão da Série D
Victor Bessa / Portuguesa SAF
Thiaguinho acaba por ficar isolado no meio, tendo de sozinho fazer a transição. João Diogo até mostra vontade e disposição. Só que, além de não ser exatamente um meia, e nem se posicionar como tal, abusava de errar passes e tomar decisões infelizes.
Por sorte, do outro lado, o Sampaio Corrêa-RJ se limitava a contra-atacar quando havia espaço. Levou, é verdade, perigo em duas oportunidades. Dada a dificuldade rubro-verde em criar, não é exagero que foram chances até mais claras do time de Saquarema.
Tudo isso ainda acabou sendo potencializado pela postura dos jogadores da Lusa. Salvo raríssimas exceções, a equipe parecia não ter senso de urgência. Vale tanto para o primeiro tempo quanto para o segundo, em que o risco dos pênaltis crescia.
A Portuguesa até voltou um pouco mais ligada para a etapa final. Mas foi uma exceção que perdurou no máximo pelos primeiros minutos. Conforme o tempo ia avançando, percebia-se o ritmo desacelerando. Talvez pelo nervosismo? Pela tensão do mata-mata?
Fato é que, quando a Lusa tentou acelerar, ficaram mais evidentes as limitações técnicas. Como, por exemplo, os erros de passe. Por todo esse cenário, poucos no Canindé acreditavam que ainda gritariam gol naquele minuto 47 com Cadorini.
Há, sim, méritos aí. A começar por dois jogadores que foram colocados na etapa final: Lucas Hipólito, que cobrou o “latereio”, e Thiago Rubim, que mais uma vez entrou bem e acabou por ser uma peça importante no desconcerto da zaga do Sampaio Corrêa-RJ.
Sim, é verdade que mata-mata não se joga. É verdade que mata-mata se ganha. E também é verdade que mata-mata, tal qual Série D, raramente permite jogo bonito. Talvez ninguém que acompanhe espere isso. Não se trata de jogo vistoso.
Trata-se, sim, de competitividade. A vitória apaga muita coisa. Mas, nesse caso da Lusa, não pode omitir ensinamentos. Não é porque se venceu com um gol nos acréscimos que se deve entender como natural a atuação ruim e a falta de senso de urgência do time.
Essa observação, aliás, vale para todos os envolvidos. Exemplo: o ritmo dos médicos da Portuguesa ao serem acionados para atender um jogador e dos gandulas na reposição das bolas nem de longe fazia parecer decisão de mata-mata. Senso de urgência.
A agilidade não é só necessária para destravar retrancas como essa do Sampaio Corrêa-RJ, mas também para evitar que o adversário amarre o jogo, que o cronômetro corra com a bola parada, que a insistência possa fazer a diferença no deserto técnico.
Não faltou vontade. De forma alguma. Mas faltou a pegada, o ritmo, o espírito de um mata-mata. Esse cenário pode facilmente se repetir ao longo da Série D. Só que não necessariamente com um adversário do outro lado com tamanha fragilidade.
Neste domingo, a Lusa descobriu o próximo adversário. Será o Marcílio Dias-SC, que eliminou o Cascavel com um 2 a 2 no Paraná e um 2 a 1 em Santa Catarina. O primeiro jogo será em Itajaí, no estádio Hercílio Luz, e o segundo será em São Paulo, no Canindé. A CBF ainda divulgará nesta semana datas e horários desses confrontos.
Aliás, vale destacar que quem passar de Portuguesa x Marcílio Dias-SC enfrentará o vencedor do embate Uberlândia-MG x Serra Branca-PB. Enquanto os mineiros eliminaram o Rio Branco-ES, os paraibanos passaram pela Juazeirense-BA.
Campeonato novamente zerado. Um novo mata-mata pela frente. Dois jogos para se manter na briga por uma das vagas na Série C. O sufoco diante do Sampaio Corrêa-RJ fica para trás. Mas, tomara, os ensinamentos desse confronto sejam levados em conta.
Que essa compreensão, do que é suficiente e do que é necessário, a fim de não colocar tudo em xeque, esteja presente dentro da SAF. Na direção, na comissão técnica e no elenco. E não só. Que esteja presente também entre a torcida rubro-verde.
Os pouco mais de quatro mil torcedores que estiveram no Canindé precisam, no próximo confronto, ser muito mais. Em um campeonato tão parelho, a pressão e o apoio fazem tanta diferença quanto a insistência e o senso de urgência. É hora de quebrar mais tabus, eliminar mais traumas, virar mais chaves e saber festejar uma vitória.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More


