Final do Paulista reúne times que ajudam futebol americano a crescer no interior de SP
A história do Ponte Preta Gorilas
No país onde a bola costuma ser conduzida pelos pés, outro futebol vai conquistando espaço – uma jarda de cada vez.
No próximo domingo, Ponte Preta Gorilas e Cane Cutters Piracicaba decidem a Série Prata da SPFL, o Campeonato Paulista de Futebol Americano. O título é importante, mas representa apenas uma parte da história.
Por trás dos capacetes, tackles e touchdowns estão dezenas de pessoas que conciliam profissão, família e estudos para manter vivo um esporte que ainda sobrevive graças ao amor de quem o pratica.
Entre eles estão o psicólogo Alvaro Pagliarini, head coach do Ponte Preta Gorilas, e o engenheiro André Moraes, gerente do Cane Cutters. Dois personagens que nunca imaginaram transformar o futebol americano em uma segunda profissão – ainda que, na maioria dos casos, sem remuneração.
Final da SPFL será neste domingo (5) entre Gorilas x Cane Cutters
Arquivo pessoal
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Os dois clubes já garantiram o acesso à Série Ouro da SPFL em 2027. Agora, brigam pelo troféu carregando histórias muito parecidas: recomeços, trabalho voluntário e uma paixão capaz de vencer qualquer obstáculo.
O recomeço que virou realização
A história de Alvaro Pagliarini com o esporte começou muito antes do futebol americano.
Campineiro, ele praticava judô e taekwondo na infância até que, aos 13 anos, recebeu um diagnóstico que mudaria completamente sua rotina: leucemia. Foram dois anos e meio de tratamento com quimioterapia, período em que precisou interromper qualquer prática esportiva.
Anos depois, já formado como psicólogo e trabalhando na área de recursos humanos, voltou a se aproximar do esporte por outro caminho.
Alvaro Pagliarini, head coach do Gorilas
Arquivo pessoal
– Meu primo começou a falar sobre futebol americano na pandemia e eu passei a assistir. Quanto mais eu conhecia, mais queria aprender. Em 2021 procurei equipes da região e encontrei o Ponte Preta Gorilas. Surgiu uma oportunidade na comissão técnica e nunca mais saí.
A ligação com o Gorilas cresceu rapidamente. Primeiro veio o trabalho como auxiliar ofensivo. Depois, o cargo de head coach, interrompido apenas por uma passagem de aprendizado no Ocelots, de Jundiaí, onde conquistou dois títulos nacionais da segunda divisão.
Quando retornou ao Gorilas, no fim de 2025, encontrou um cenário completamente diferente daquele que conheceu anos antes.
Fundado em 2010, ainda como Itatiba Prests, o projeto passou por Vinhedo antes de firmar parceria com a Ponte Preta, em 2015. A pandemia, porém, quase interrompeu definitivamente a caminhada.
– O pós-pandemia foi muito difícil. Tivemos treinos com apenas 12 jogadores. Precisamos praticamente recomeçar do zero, ensinar muita gente desde o começo. Foi um período muito desafiador, mas também de reconstrução.
Elenco do Gorilas na SPFL 2026
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Hoje, o treinador vê a primeira final da história do Gorilas como consequência desse processo.
– Eu tenho muito orgulho desse time. Ver onde estávamos em 2021 e chegar agora à primeira final da nossa história não tem explicação. É um grupo que nunca desiste. A campanha inteira mostrou isso. Voltamos porque acreditávamos que esse sonho era possível.
Mais do que o resultado, Alvaro enxerga a decisão como uma recompensa para quem manteve o projeto vivo durante os momentos mais difíceis.
Matheus Perez é um dos destaques do Gorilas
Arquivo pessoal
– O nosso time é formado por pessoas que amam o clube. Tem dirigente que tira dinheiro do próprio bolso para fazer as coisas acontecerem. Tem jogador que trabalha o dia inteiro e chega à noite para treinar. Não somos perfeitos, mas talvez sejamos um dos times que mais se dedicam. Ser campeão -seria a realização de um sonho para todos nós.
Mesmo vivendo um momento histórico, ele acredita que o maior desafio do futebol americano brasileiro continua sendo estrutural.
– Ainda falta investimento. Quem consegue captar recursos evolui muito mais rápido. O talento existe. O problema é criar condições para que ele permaneça dentro do esporte.
Além do título, o treinador sonha com outro avanço. Hoje, o Gorilas treina no Taquaral e manda partidas em cidades da região, como Valinhos. Ter uma casa fixa em Campinas ainda faz parte dos planos.
– Nosso sonho é ter um espaço para chamar de nosso. Um lugar para treinar durante a semana, guardar nossos equipamentos e criar identidade com a cidade. Quem sabe um dia até jogar no Moisés Lucarelli.
O time que mudou a própria mentalidade
Em Piracicaba, a caminhada também foi construída muito antes da chegada à final.
Fundado em 2008 na modalidade flag football e consolidado no futebol americano em 2010, o Cane Cutters nunca havia conquistado o acesso à Série Ouro em 16 anos de existência.
Inspirado na NFL, flag football ganha adeptos no Brasil
Para André Moraes, um dos responsáveis pela reorganização do projeto, a principal mudança aconteceu antes mesmo das vitórias dentro de campo.
Engenheiro por profissão, ele encontrou no futebol americano um ambiente completamente diferente daquele que conhecia em outros esportes.
– Eu me encontrei no futebol americano porque ele foge daquele estereótipo da pessoa atlética. Foi um esporte que aceitou o meu biotipo. Mais do que isso, encontrei novas amizades e um ambiente em que ninguém consegue fazer nada sozinho. Para cada jogada acontecer, todo mundo precisa cooperar.
André Moraes atua como gerente no Cane Cutters Piracicaba
@nz10fotografia
Pouco tempo depois de chegar ao clube, André assumiu a gerência.
– Sempre procurei ajudar na organização. Quando aceitei esse desafio, consegui transformar muitas ideias em realidade. Hoje vejo o quanto evoluímos e fico muito feliz por participar desse crescimento.
Segundo ele, a maior transformação do Cane Cutters aconteceu internamente.
– Nosso maior desafio foi mudar a mentalidade. Queríamos fazer com que todos acreditassem que éramos fortes, que poderíamos conquistar coisas que antes pareciam impossíveis. Essa mudança começou dentro do clube e acabou aparecendo em campo.
Cane Cutters eliminou o Corinthians na semifinal da SPFL
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Os resultados comprovam essa evolução.
Invicto, o Cane Cutters garantiu o acesso à Série Ouro sem sofrer um único ponto durante a campanha e eliminou o Corinthians Steamrollers na semifinal.
– A gente sabia, desde o início, que era possível. Trabalhamos muito para isso. O ataque evoluiu, a defesa evoluiu e conseguimos confirmar aquilo que imaginávamos lá no começo da temporada.
Cane Cutters; SPFL 2026
@nz10fotografia
Apesar da campanha histórica, a realidade ainda é semelhante à vivida pelo adversário da decisão.
O clube também não possui um estádio próprio e manda suas partidas em cidades vizinhas, como Águas de São Pedro e Rio das Pedras.
– Ainda não temos um campo em Piracicaba, mas a nossa torcida faz toda diferença. Ela transforma qualquer lugar na nossa casa. Dá realmente a sensação de que estamos com mais jogadores em campo.
Cane Cutters busca título da SPFL para coroar temporada
@nz10fotografia
Para André, um eventual título significaria muito mais do que uma conquista esportiva.
– Representaria o reconhecimento de uma mudança de postura. Talvez sejamos um time pequeno para muita gente, mas somos gigantes na essência. Merecemos disputar títulos e acumular vitórias.
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Enquanto a NFL movimenta bilhões de dólares nos Estados Unidos, o futebol americano no Brasil continua sendo sustentado por quem dedica horas do próprio tempo para manter o esporte vivo.
Treinadores, dirigentes, atletas e voluntários conciliam suas profissões com treinos, reuniões, viagens, organização de eventos e busca por patrocinadores.
É essa dedicação que permite que projetos como Ponte Preta Gorilas e Cane Cutters continuem crescendo.
No próximo domingo, apenas um deles levantará o troféu da Série Prata.
Os dois, porém, já conquistaram algo maior: provaram que o futebol americano também pode encontrar espaço quando existe gente disposta a acreditar, trabalhar e construir o esporte uma jarda de cada vez. geRead More


