Jornalista em cadeira de rodas brilha na Copa e ganha a atenção de astros: “Há espaço para todos”
Jornalista venezuelano Manu Gutierrez já entrevistou Messi e Bellingham
Dizem os bons manuais que um jornalista deve ser um meio pelo qual as informações chegam à sociedade, uma ponte entre os acontecimentos e o público. Um jornalista por si só, a princípio, não é notícia. Mas há casos especiais, como o de Manu Gutiérrez, um repórter que usa cadeira de rodas que vem brilhando na Copa do Mundo 2026.
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Manu ganhou notoriedade nas redes sociais ao atrair a atenção de astros que disputam o torneio: Messi, Bellingham, Pedri, Enzo Fernández, Jhon Arias e outros craques pararam para responder perguntas do repórter, muitas vezes de forma exclusiva e fora do protocolo. Suas redes sociais, a pessoal e a do veículo que criou, ganharam muitos seguidores, inclusive brasileiros.
Manu Gutiérrez entrevista Enzo Fernández em zona mista
Jorge Natan
O ge entrevistou Manu Gutiérrez para que o jornalista contasse sua história, que começou com estudos à distância de comunicação social e hoje se destaca na cobertura do Mundial, onde está ao lado do pai, que atua como seu cinegrafista.
– É uma longa história, com muitos altos e baixos, como uma montanha-russa. Nasci com uma paralisia motora que me impede de andar, mas sempre fui apaixonado por futebol, por esportes. Meu pai é um grande fã, então cresci assistindo futebol. Em vez de assistir desenhos animados ou qualquer outra coisa, eu assistia ao futebol e, obviamente, queria jogar. Mas devido à minha condição física, não podia. Descobri que o mais perto que eu podia chegar de um campo era através do microfone de um jornalista e comecei a trilhar meu próprio caminho muito cedo – conta Manu, de 30 anos.
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Estudo à distância e falta de emprego
O primeiro emprego veio na área da comunicação, aos 15 anos, como produtor de uma rádio esportiva em Punto Fijo, sua cidade natal, na Venezuela. Quando completou 18 anos, Manu iniciou os estudos em comunicação social à distância, já morando nos Estados Unidos, onde está há 10 anos, em uma cidade no Alabama. Ele se formou em fevereiro de 2021 e, para isso, superou problemas que envolveram sua universidade venezuelana. Por pouco, não desistiu – e, por isso, diz que nunca imaginou estar cobrindo uma Copa do Mundo.
– Nunca me passou pela cabeça porque era um curso muito complicado, já que eu estudava à distância. A universidade ficava na Venezuela, e eu estava aqui nos Estados Unidos. Eu tinha que entregar meus trabalhos, minhas tarefas, meus relatórios. E às vezes, devido à situação no país, tudo era perdido por causa de quedas de energia no país. Eu estava quase desistindo, mas finalmente consegui.
Manu ao lado do pai, Jesus, que é seu cinegrafista na Copa do Mundo
Jorge Natan
A maior dificuldade veio depois e acabou sendo um impulso para o sucesso. Manu não conseguiu encontrar emprego em veículos já existentes e decidiu fundar seu próprio meio, o canal “MVP Sports”, em 2023. A primeira grande cobertura foi a Copa América de 2024, também nos Estados Unidos, mas foi no Mundial deste ano que vieram os momentos mais especiais.
O primeiro foi protagonizado ainda antes de a bola rolar, no dia 10 de junho. E com ninguém menos que Messi, que notou a presença do repórter ao atender fãs na porta do hotel da Argentina. Primeiro, o craque cumprimentou Manu, pediu que os torcedores tivessem cuidado com ele e topou responder duas perguntas, totalmente fora do protocolo. A cena viralizou e depois se repetiu em cenários diferentes.
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Em meio às zonas mistas após as partidas, quando a maioria dos atletas passa de forma acelerada, sem responder perguntas, o repórter venezuelano conseguiu fazer com que craques mundiais dedicassem uns instantes de atenção a ele. Uma das entrevistas que mais chamou a atenção foi com Jude Bellingham. O inglês passava sem falar com os repórteres, depois da vitória da Inglaterra sobre a RD Congo, mas mudou de ideia quando ouviu Manu citar a Venezuela. O jornalista pedia um recado para o povo venezuelano, dias depois do devastador terremoto que atingiu o país.
– Tenho um carinho especial pela de Bellingham, porque quase ninguém parou naquela zona mista, e Bellingham, quando ouviu o nome do meu país, automaticamente parou e falou em espanhol para o povo do meu país. Sou muito grato por isso – lembra.
Pai cinegrafista e grande esforço físico
Em todas essas entrevistas Manu teve um cinegrafista especial: seu pai. Jesus Gutiérrez também recebeu uma credencial da Fifa para poder acompanhar Manu na cobertura e dá todo o apoio necessário para o jornalista, além de captar seus vídeos.
– Sou seu motorista, guarda-costas, patrocinador, assistente e seu pai (risos). Para mim, era impensável estar em uma Copa do Mundo, como ele disse. E ele me trouxe aqui. Estou aqui graças a ele. É ele quem está dando conta de tudo, e com a ajuda de Deus – diz Jesus.
Manu aponta que ter o pai ao lado é o maior presente da cobertura da Copa do Mundo, pois é um privilégio ter a família como espectadora de seu trabalho “na primeira fila”. E agradece à Fifa pelas exceções abertas em seu caso. A entidade tem colocado à disposição do jornalista voluntários para que verifiquem a acessibilidade necessária, além de permitir que ele fique em um espaço mais vazio nas zonas mistas.
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Jorge Natan
Ainda assim, as entrevistas com os craques são fruto de um grande esforço. Manu Gutiérrez lembra que não é simples permanecer tantas horas na cadeira de rodas, em meio ao deslocamento para o estádio, pré-jogo, toda a partida e ainda a zona mista.
– Tenho que ser honesto. Não é normal. Não é normal porque ficar sentado aqui exige um esforço físico tremendo, porque não são apenas as duas horas que a partida dura, mas o dia todo. Doze horas, na verdade. Daqui tenho que voltar para casa e depois vou outra cidade para continuar a cobertura. Obviamente, é cansativo para qualquer pessoa, mas especificamente para alguém em cadeira de rodas, que tem uma condição que torna seus músculos mais rígidos, a fadiga é obviamente maior. Então não é normal, mas isso não significa que não é possível.
Com o sucesso da cobertura da Copa do Mundo, Manu espera que seu canal possa abrir oportunidades para outros jornalistas que convivam com algum tipo de deficiência – para que eles também consigam estar em grandes eventos do esporte mundial.
– Acho que isso cria um precedente para aqueles que virão depois de nós. Acho que a Fifa entendeu que era importante ampliar um pouco, dar visibilidade a esse tipo de caso, não só para mim. Para mostrar que há espaço aqui para todos os tipos de jornalistas – comenta Manu. geRead More


