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Ganhou a Espanha, ganhou uma ideia

Ganhou a Espanha, ganhou uma ideia

Futebol não é matemática, e mesmo equipes que têm a mesma ideia de jogo não são iguais porque são executadas por pessoas e pessoas têm características diferentes. O futebol têm seguido, nas últimas duas décadas no mínimo, duas tendências básicas (ambos com muitas subdivisões): o jogo que chamo de entretenimento, de Premier League e Bundesliga: intensidade, verticalidade, trocação, prioridade para o ataque. E o jogo de posse, de refino técnico, de paciência, de imposição mais técnica do que física. Mas, vejam: no primeiro grupo, a França não é igual ao Bayern Munique, que não é igual ao Palmeiras. Assim como no segundo, cujo representante mais ilustre e capaz é a Espanha bicampeã do mundo, a Fúria não é igual à Argentina, que não é igual ao Flamengo de Filipe Luís. O que aconteceu nos Estados Unidos foi a supremacia do modo Espanha, ou modo tiki-taka, ou modo posse de bola, sobre o outro modelo e suas subdivisões.
Bicampeã: Espanha domina a Argentina e conquista a Copa pela segunda vez
A final de Nova Jérsei foi um exemplo perfeito de dois oponentes que pensam o jogo igual, mas executam-no de modo diferente. A Espanha joga com posse em torno de uma ideia, a Argentina joga com posse em torno de um jogador. Uma questão que decidiu a Copa para a Espanha é que seus jogadores confiam tanto no próprio taco que, mesmo diante de times que têm Mbappé e Messi na frente, a Espanha toma a iniciativa, nada assusta esse grupo. Os craques citados simplesmente não tocaram na bola na semifinal e na final. E foram situações distintas. Mbappé recebeu poucas bolas e as que chegaram foram divididas com Cubarsí (e o brilhante zagueiro espanhol ganhou todas). Messi simplesmente só recebeu duas bolas na prorrogação, quando seu time já perdia. Foram duas partidas perfeitas (se é que isso é possível) da Espanha.
E que ninguém se iluda que esse modelo da Espanha possa ser imitado e implementado rapidamente. O conceito foi levado em 1992 para o Barcelona pelo genial Johann Cruyjff – que por sua vez era um passo adiante da ideia de Rinus Michels com a Holanda: um time que não tinha posição fixa, jogadores inteligentíssimos para executar essa ideia, que confundia os adversários. A partir dessa semente do Barça, foi se montando a ideia de jogadores versáteis, capazes de múltiplas funções, mas (aqui o ajuste em relação ao Ajax e à Holanda), respeitando a presença física em todas as posições do campo. Pouco mais de uma década depois, anos de trabalho e ensino, os resultados práticos de tudo isso o Barcelona começou a colher justamente quando formou em La Masia um gênio como… Lionel Messi, além de craques como Xavi, Xabi Alonso e Iniesta.
Outra ironia do futebol com a vida, é que a proposta de jogo que virou oficial da Espanha, e que já lhe deu três Euros e duas Copas do Mundo, vem de uma região que sonha em se separar do país, que muitos de seus filhos não se sentem espanhóis. Assim, o jeito Barcelona virou o jeito Espanha, não à toa o clube catalão deu a maioria dos representantes máximos do jogo campeão, o Real Madrid (que sempre optou por montar milionárias seleções do planeta, vencedor cuja identidade é o dinheiro) não tinha ninguém no grupo campeão em 2026 – Cucurella foi negociado mas ainda não se apresentou.
O futebol de controle foi portanto incontestável sobre o jogo de trocação, porque o campeão mundial joga assim e o vice também. Mas não é o único jeito, talvez não seja o melhor (mas é, fácil, o que mais gosto), tomara que em 2030 o Brasil, que hoje está num limbo (nem num modo nem no outro), escolha um, trabalhe muito nele com Carlo Ancelotti (que tem flexibilidade para não se aferrar num esquema, ele fará o que puder com o material que tiver nas mãos), e volte a ser campeão.
Parabéns ao povo espanhol, ao excelente Luiz de La Fuente, seu staff e seus jogadores. O mundo da bola é merecidamente de “ustedes”.
P.S. Como não poderia deixar de ser, jornalista adora brincar de treinador e vai aqui a minha seleção da Copa do Mundo de 2026: Unai Simon; Pedro Porro, Upamecano, Cubarsí e Cucurella; Rodri, Bellingham e Messi; Dembelé, Haaland e Mbappé. Técnico: Luiz de La Fuente. Craque da Copa: Messi (essa escolha foi difícil porque eu daria empate entre ele e Rodri, acabei usando a idade e a relevância histórica para escolher La Pulga). geRead More