RÁDIO BPA

TV BPA

O Inter é fraco, mas tem caráter

O Inter é fraco, mas tem caráter

Internacional 1 x 0 Coritiba | Melhores momentos | 34ª rodada | Brasileirão 2026
Todo mundo que habita o chão de fábrica do futebol sabe que a vida de verdade acontece é na briga para fugir do rebaixamento. Longe das grandes decisões, afastados mesmo do agradável limbo do meio da tabela, os que buscam apenas sobreviver mostram que o desespero é terreno fértil para emoções intensas — e gera doses industriais de entretenimento para os alheios.
No Beira-Rio, na noite de ontem, não havia um centímetro quadrado sequer de espaço para relaxamento. O perrengue entre Inter e Coritiba prometia ser uma batalha para se afastar do rodapé da classificação. Prometia e cumpriu, de todas as formas possíveis.
Revigorado pela mudança de comando técnico e pelos três pontos conquistados diante do Vitória, o time paranaense foi melhor no primeiro tempo. Sólido na defesa, não oferecia espaços ao Inter e ainda saía em velocidade, aproveitando-se da ogiva de angústia em que havia se transformado o estádio colorado. Tanto que chegou a abrir o placar, mas Breno Lopes estava impedido — por uma vela de sete dias, apontou o VAR.
Jogadores do Inter comemoram gol contra o Coritiba
Ricardo Duarte/Internacional
Alguma força misteriosa se fez presente no vestiário do Inter durante o intervalo, pois o segundo tempo mostrou um cenário totalmente diferente — ainda que igualmente caótico. Com o Z4 não apenas lhe mordendo os tornozelos, mas já mastigando um pedaço da panturrilha, o Internacional não viu alternativa senão amassar o Coritiba. Se não em futebol, ao menos em ânimo.
O time de Eduardo Baptista tornou-se inquilino do campo do Coritiba e tentava finalizar da forma que fosse contra o excelente Pedro Morisco. Lá pelas tantas, estava com uns quatro homens dentro da área para cabecear qualquer coisa remotamente semelhante a uma bola que cruzasse o espaço aéreo — uns dois centroavantes, mais um par de zagueiros, talvez algum funcionário da copa do Beira-Rio.
O Inter movia uma usina para acender um palito de fósforo, e a torcida parece ter se comovido com o caráter de um time que, essencialmente, é muito fraco. E assim as quase quarenta mil gargantas se empenharam em tentar acender, na base do sopro, alguma faísca redentora sobre o gramado.
De fato, havia um toco de brasa sob o carvão. Já nos acréscimos, o zagueiro Rodrigo Moledo, 39 anos, que entrara no lugar de Jacy, perdeu a compostura e cometeu pênalti em Juninho. Para os colorados, estava desenhada a epopeia proletária, um tipo de roteiro desconhecido por quem desperdiça tempo e dinheiro brigando por títulos e outras picuinhas no topo da classificação.
O repórter Fernando Becker entrevista o atacante Alerrandro, do Internacional, na beira do gramado a
Para completar a utopia cinematográfica vermelha, quem apanhou a bola para cobrar foi Alerrandro, o centroavante que não faz gols e é olhado com desconfiança até pelos quero-queros que frequentam o gramado do Beira-Rio. Como nada mais fazia sentido, a arquibancada levantou para gritar seu nome repetidas vezes — o desespero, já vimos, é capaz de construir algumas formas surpreendentes de beleza. E, como se fosse Van Basten na flor da juventude, o contestado camisa nove correu e acertou o ângulo. São demasiados mundanos os heróis que batem cartão nos confins da tabela — e nem por isso menos heróis.
Nesse tipo de filme, realizado para fugir de todas as premiações, sempre há um epílogo. E foi comovente a briga de foice no escuro que sucedeu o gol. Armado para atacar como se não houvesse amanhã, o Inter precisava se defender. Montado para segurar o empate, agora era o Coritiba que precisava atacar.
E os acréscimos já eram quase um tempo à parte quando o confuso juiz resolveu que aquela controversa obra-prima, um Apocalipse Now de baixo orçamento, estava de bom tamanho. Para os colorados, enfim foram concedidas algumas horas de ócio sem culpa na exigente jornada de sete dias de sofrimento por semana. geRead More