Grêmio e Inter andam de mãos dadas na direção do abismo
Muitas vaias da torcida do Internacional após apito do fim do primeiro tempo
Na noite de sábado, o Inter, sem jogar, ultrapassou o Grêmio na tabela do Brasileirão – depois de o rival perder saldo ao ser derrotado pelo Cruzeiro (2 a 0).
Horas depois, na manhã de domingo, o Grêmio, sem jogar, ultrapassou o Inter na tabela do Brasileirão – depois de o rival perder saldo ao ser derrotado pelo Mirassol (2 a 1).
Seria engraçado se não fosse tão preocupante. No fim da rodada, os rivais, feito irmãos que se provocam o tempo todo mas não conseguem se separar, estavam ambos um ponto à frente da zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro.
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Inter e Grêmio no Gre-Nal do dia 11 de abril de 2026
Liamara Polli/AGIF
Grêmio e Inter andam de mãos dadas na direção do abismo. A situação na tabela explica um problema muito maior: a perda de força e relevância da dupla Gre-Nal no futebol brasileiro nos últimos anos. Antes acostumados a brigar por títulos, os clubes agora são postulantes ao alívio do 16º lugar.
Escrevo aqui de Porto Alegre. Embora tenha nascido em Curitiba, considero-me gaúcho (vim para cá ainda bebê; fiz questão de retornar depois de ficar 12 anos fora). Rejeito nosso bairrismo, acho que ele nos atrasa, mas sou um defensor radical da grandeza de nossos times. Aqui nesse cantinho no Sul do mundo, em uma cidade de menos de 1,5 milhão de habitantes, temos dois campeões mundiais, cinco Libertadores, dois estádios impressionantes e uma relação umbilical entre nossa cultura e nosso futebol.
Christian e Lucas Romero marcaram os gols da vitória do Cruzeiro sobre o Grêmio por 2 a 0
Mas paramos no tempo enquanto o futebol vivia uma revolução. Hoje, Grêmio e Inter são clubes altamente endividados, com centros de treinamento defasados na comparação com muitos concorrentes, com resultados inexpressivos e times medrosos. Temos dificuldade de colocar mais de 15 mil pessoas nos estádios, tamanha a desilusão de torcidas que sempre foram muito fieis – o Inter melhorou a média nos últimos jogos do Brasileirão, graças ao atrativo de um Gre-Nal e uma partida às 11h em um domingo de sol.
O clássico de nove dias atrás, aquele 0 a 0 medonho, foi um símbolo do buraco em que nos enfiamos. A mediocridade esteve desenhada no gramado do Beira-Rio. O Grêmio jogou para não perder, o Inter jogou para não ganhar. Na rodada seguinte, um tirou o Cruzeiro da zona de rebaixamento, o outro tirou o Mirassol da lanterna.
Paulo Pezzolano analisa derrota do Internacional para o Mirassol
Esse processo de degradação convida ao surgimento de salvadores da pátria, agora personalizados nas figuras dos dois treinadores. O Grêmio investiu forte em Luís Castro para um processo de remodelação do futebol; o Inter apostou em Paulo Pezzolano para alguma alquimia com um elenco pior (!) do que aquele que foi ao inferno e voltou na última rodada do Brasileirão passado.
São dois bons treinadores, mas o campo assusta. O time tricolor, desde uma tímida evolução na final do Gauchão, não apresenta nada. Nos jogos mais recentes, quase perdeu em casa para o Remo, conseguiu ser derrotado pelo City Torque, mal chutou a gol no Gre-Nal, penou para vencer o Deportivo Riestra e foi dominado pelo Cruzeiro. Luís Castro já avisou que fará mudanças.
Luís Castro voltou a reconhecer uma má atuação do Grêmio, desta vez na derrota para o Cruzeiro
Lucas Uebel / Grêmio / Divulgação
Enquanto isso, a equipe colorada até encontrou alguns resultados fora de casa, mas eles foram anulados pela nulidade como mandante. Contra o Mirassol, no pior dos últimos jogos, Pezzolano montou uma escalação mirabolante, escolhendo justamente uma partida em que já estava fragilizado por desfalques em outro setores para desarquivar um garoto (Allex), repentinamente transformado em titular depois de ter virado reserva do reserva. Carbonero, com isso, foi parar no banco. Ninguém entendeu nada.
É o desespero no micro explicando o fracasso no macro. Grêmio e Inter precisam de novos modelos administrativos. A fórmula clássica, com diretorias formadas por amigos do presidente e composições políticas, funcionou enquanto todo mundo fazia a mesma coisa Brasil afora. Isso é passado.
Time do Inter na derrota para o Mirassol no Beira-Rio
Maxi Franzoi/AGIF
A transformação em SAF poderia ser um caminho, mas os clubes são refratários à ideia, debatida internamente ainda de forma muito preliminar. Mas mesmo essa alternativa levanta dúvidas. Se Grêmio e Inter não conseguem um patrocinador máster para a camisa (estão há meses com o espaço principal vazio, depois de levarem calote de uma casa de apostas), é de se confiar que conseguirão uma empresa confiável para assumir o futebol?
Talvez a face mais triste disso tudo é que os rivais se retroalimentam nessa ciranda de fracassos. E aí períodos de soberania sobre o adversário mascaram problemas mais profundos. De 2011 a 2016, bastou ao Inter ser melhor do que o Grêmio; de 2017 a 2024, bastou ao Grêmio ser melhor do que o Inter.
Agora a torcida gremista tem provocado a colorada pelo aniversário de 15 anos sem títulos relevantes, em um troco à valsa dançada por Eduardo Sasha quando a mesma seca atingiu o lado azul. São boas piadas, boas provocações. Mas elas podem perder a graça. Se Grêmio e Inter não mudarem, acabarão dançando juntos. geRead More


