RÁDIO BPA

TV BPA

Jogadores domesticados, futebol padronizado e um jogo tedioso

Jogadores domesticados, futebol padronizado e um jogo tedioso

Lyanco provoca Lucas Ronier, mas erra em gol do Coritiba na sequência e recebe resposta
Você deve ter visto que o lance que mais chamou a atenção na rodada 12 do Brasileirão foi a provocação de Lyanco, zagueiro do Galo, a Ronier, ponta do Coritiba, e o acontecimento imediatamente seguinte, do zagueiro falhando e entregando o segundo gol do Coxa na partida. É claro que o lance rendeu zoação nas redes sociais, risadas e, é claro, cobrança de alguns torcedores em cima de Lyanco. Particularmente, adoro acontecimentos assim, não pela “lição” imediata que Lyanco recebeu, mas por trazerem ao roteiro do jogo um elemento cada vez mais raro de presenciar nas partidas de futebol profissional: personalidade individual.
A provocação faz parte do jogo e é elemento de qualquer partida, seja na várzea ou na final da Copa do Mundo. Está tudo certo, se não existir violência física ou verbal, obviamente. É uma tentativa de desequilibrar emocionalmente o oponente que pode dar certo ou muito errado, a depender da personalidade de quem confronta. Isso apimenta o jogo, esquenta o clima, dá graça a um jogo cada vez mais empenhado em ser padronizado, insosso, repetido.
Existe um “achatamento comportamental” no futebol e ele é causado de propósito. Uma tentativa de padronização das emoções dos jogadores, na maneira que se expressam verbalmente ou com a bola nos pés. Uma estratégia de reduzir (ou até extinguir) o fator individual em favor do bem coletivo – como se o sucesso de uma equipe não fosse dependente de individualismos. O futebol moderno de força física, cobertura de espaços e ações rápidas aboliu todas as características pessoais que não servem o propósito do plano de jogo. Por isso vemos quase sempre o mesmo esquema tático em campo, as mesmas ações. Tudo é previsível, repetido, cansativo. É como assistir o mesmo filme chato várias e várias vezes.
Essa uniformização do comportamento vem de muita gente: parte da imprensa, que julga com tranquilidade qualquer palavra ou ação feita em campo como um tribunal acima do bem e do mal, na expectativa de presenciar um jogo de conto de fadas, ou um musical da Disney, com passarinhos que cantam junto de princesas e pôneis saltitantes; treinadores, que além de a maioria deles ter a mesma ideia de jogo e acreditar nos mesmos conceitos, simplesmente não conseguem mais encaixar o jogador anárquico no contexto; e a arbitragem, que paga um boi pra não ter que se incomodar, e uma boiada para que o VAR resolva. Se acontecendo sempre os mesmos lances já cometem erros crassos de uma rodada para outra, imagina se precisarem lidar com o incomum.
Initial plugin text
A questão vai além de emoções ou provocação: interfere nas decisões de campo. Os jogadores são, desde a base, doutrinados a tomarem a decisão que, na perspectiva do treinador, é a correta em campo, ou porque determinado proceder vai formá-lo de acordo com o que o mercado europeu espera de um jogador… Disso resultam a padronização de ações e a perda de individualidade que se repetem em todos os times.
A provocação entre Lyanco e Ronier, a dança do Endrick após o gol contra o PSG (que sem motivo algum está dando o que falar), as reboladas na bandeirinha de escanteio que Vini Jr deu há algumas semanas, são exemplos de  quebra do padrão das ações e da expectativa de homogeneização do futebol, e isso tem frustrado muita gente.
Endrick comemora gol do Lyon sobre PSG com dancinha
Mohammed Badra/EFE/EPA
Por isso, todos os pontas fazem a mesma coisa. Todos os volantes tomam as mesmas decisões. O jogador só se infiltra quando o mesmo cenário programado aparece; só finaliza quando a bola chega da maneira treinada. Uns executam melhor do que outros, é claro, por isso tem jogador bom e ruim. Mas o plano é o mesmo, sempre. Na tentativa de eliminar o acaso da partida, busca-se garantir que o jogo transcorra sempre dentro do previsto. Tudo é orientado à extração de dados, tidos como exatos e capazes de reduzir – ao menos em tese – a probabilidade de erro, ainda que isso resulte em um jogo sem graça.
Penso que isso ajuda a responder: “por que não revelamos mais Ronaldos?” Ora… Porque o jogador com personalidade para fazer o jogo à sua maneira é incontrolável e não é interessante estar suscetível ao imprevisível, num negócio que movimenta bilhões de dólares. Pela urgência do resultado, quase nenhum treinador consegue, hoje, encaixar o futebol anárquico e talentoso da rua no campo profissional. Futebol hoje é tempo. É velocidade na tomada de decisão e quanto mais se padroniza a decisão (processo realizado desde a base), menos o cérebro do jogador perde tempo pensando. Não é interessante praticar um futebol atrativo, genial ou diferente, contanto que seja eficiente. 
Assim que o futebol encontrou sua razão de existir no negócio e não mais no entretenimento, o Brasil passou a servir o propósito do futebol mundial. O que importa é revelar o jogador que o Chelsea compre e não perder tempo com aqueles que podem ou não vir a ser craques.
Sugiro ao leitor que faça o exercício de rever os lances do Neymar quando surge no Santos: driblava um time inteiro. Não tocava a bola. Buscava ela onde queria. Quebrava completamente qualquer plano de jogo. Provavelmente irritava o treinador. Mas fazia o improvável e por isso ninguém conseguia marcá-lo. Craque, independentemente se você acha que ele é marrento, insuportável ou cai-cai (isso é outro assunto).
Então, sim, eu gostaria de ver mais provocações (dentro do que não é crime) nos jogos. E mais jogador respondendo a provocação na bola em vez de chorar com o árbitro. Mais elementos humanos no jogo, genuínos, autênticos. Menos jogos insossos e mais espaço para jogadores capazes de fazer em campo algo diferente. Mais treinadores que saiam da caixa. E mais paciência de todo mundo quando o resultado não acontece. A verdade é que até a torcida está doutrinada, assim como a imprensa, assim como os gestores de futebol. Todo mundo já aceitou essa água de salsicha que virou o futebol e é por isso que só o resultado importa. Já que, em 90% do tempo, o jogo se tornou repetitivo, tudo o que tem alguma graça são os 3 pontos na tabela. geRead More