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Mais fumaça, menos mosaico: O futuro da Libertadores passa por suas origens

Mais fumaça, menos mosaico: O futuro da Libertadores passa por suas origens

Todo mundo já ouviu algum tio dizer, com os olhos esvaziados pela nostalgia: “bom mesmo era a velha Libertadores”. Hoje, muitos dos que ouviram essa sentença já têm seus próprios sobrinhos e percebem que ela carrega alguns fundamentos. Especialmente nos últimos anos, o principal torneio da América do Sul buscou aproximar-se da Liga dos Campeões e acabou deixando para trás aquilo que o transformou na competição de clubes mais autêntica do futebol — afirmação cultural e sensação de pertencimento popular.
Dias atrás, o estádio Cilindro estava vazio para receber o confronto entre Racing e Botafogo, pela Sul-Americana. O pecado da torcida racinguista foi ter amado demais — e demonstrado esse amor através de uma festa intensa, repleta de loucura, fumaça e sinalizadores, contra o Flamengo, na edição passada da Libertadores. A manifestação, como está previsto, acabou punida pela Conmebol, que proíbe o uso de pirotecnia não apenas nas arquibancadas, mas no entorno do estádio — estão tentando nos ensinar como celebrar uma religião que nós mesmos criamos. Na terça-feira, o Cruzeiro recebeu o Boca Juniors em confronto com toda cara de Libertadores, mas o Mineirão parecia um teatro — e não por culpa da torcida cruzeirense.
Somado aos efeitos da arenização, o proibicionismo da Conmebol mudou (para pior) a maneira como o torcedor se comporta. Na recepção ao time, a liturgia de bandeirões e fumaça acabou substituída pelos metódicos e insípidos mosaicos, que podem mostrar muito, mas dizem muito pouco sobre o que somos em termos culturais. Em busca de um ideal estético europeu, abandonou-se uma forma de torcer que foi decisiva para a construção do imaginário acerca da Libertadores, admirado em grande parte do mundo. “Os sul-americanos vivem o futebol de forma diferente”, dizem eles. Ou diziam.
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Parece claro que houve um marco nessa pasteurização. No caso, quando a Conmebol decidiu, em 2018, tirar do seu próprio continente a partida decisiva entre Boca Juniors e River Plate, levando um dos jogos mais aguardados da história para o Santiago Bernabéu — a Libertadores, em termos alegóricos, anunciava sua rendição para os colonizadores.
Estava aberto o caminho para a deturpação máxima: a final em jogo único, que desconsidera peculiaridades geográficas e sociais da América do Sul. Assim, se afastava o torcedor comum de qualquer chance de presenciar, no estádio de toda a vida, talvez seu maior momento relacionado ao futebol. O palco neutro, destituído de atmosfera e com ingressos proibitivos, é um evento que poderia pertencer a qualquer lugar no mundo — e justamente por isso não pertence a lugar nenhum, muito menos aos que vivem neste quadrante do mundo. Nos tiraram duas noites apoteóticas, momentos fundamentais da identidade futebolística do continente, em troca de uma tarde de sábado na casa dos avós, morem eles em Buenos Aires, São Paulo ou Assunção.
Não se trata (apenas) de saudosismo. Todos sabemos que nem tudo era melhor na velha Libertadores. Hoje, os estádios têm uma estrutura muito mais adequada para receber os torcedores, por exemplo. O público diversificou-se comparado ao que se via antigamente, época em que as mulheres passavam por todas as provações quando se atreviam a frequentar a arquibancada. Mas abraçar o presente não implica, necessariamente, diluir uma identidade inteira. Esses tempos até anel para o melhor jogador da Libertadores andavam dando, como acontece na NBA. Como diria o gaiteiro vestido com a camisa do Guarany de Bagé quando lhe servem um churrasco de air fryer: não é possível um troço desses.
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Podemos até mesmo recorrer a questões pragmáticas, ao argumento comercial. Quando tenta se metamorfosear em uma versão genérica de torneios europeus, a Libertadores perde os atributos que historicamente a tornaram atraente para torcedores de todo o mundo — e que poderiam transformá-la em uma competição de enorme potencial econômico, se fossem aperfeiçoados (driblando o caminho preguiçoso da proibição). Em um mundo cada vez mais padronizado, talvez não exista movimento mais inovador do que reencontrar as suas próprias raízes.
Quando pesquisamos a origem do nome Libertadores da América, chegamos em José de San Martín, Simón Bolívar, José Artigas e Bernardo O’Higgins, baluartes do processo de independência do continente, quando o território começou a se transformar no que é hoje. No temperamento sul-americano, o futebol assumiu papel fundamental nessa construção simbólica. Por isso, há algo de profundamente deslocado quando, ao fim de um Estudiantes x Flamengo, precisamos escolher o “hero of the match”. Todos sabemos que seria muito mais digno entregar o prêmio ao “cabra do bolicho”, assim mesmo, em bom portunhol, a língua oficial das nossas arquibancadas. geRead More