Governo do México vive desgaste ao mexer em férias escolares por causa da Copa do Mundo e do calor
Um dos países-sede da próxima Copa do Mundo, o México atravessou dias de turbulência por causa de uma proposta que tem relação com o megavento e as mudanças do clima. O governo federal chegou a anunciar que anteciparia as férias escolares em mais de um mês devido à Copa e às ondas de calor que o país tem enfrentado, mas voltou atrás diante da repercussão negativa.
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Em termos simples, uma onda de calor é um período de dias seguidos com temperaturas muito acima do normal para uma determinada região, uma sequência de dias e noites quentes.
Períodos longos de calor intenso, durante o dia e a noite, provocam um desgaste contínuo no corpo, porque dificultam o controle da temperatura corporal. A exposição excessiva ao calor aumenta o risco de desidratação, exaustão, insolação e piora de doenças já existentes.
O secretário de Educação do México, Mario Delgado, anunciou na quinta-feira da semana passada que o ano letivo 2025/26 seria reduzido em mais de um mês para “proteger” os estudantes de altas temperaturas e facilitar a logística nas três sedes da Copa no México: a capital Cidade do México, Guadalajara e Monterrey.
A data do início das férias é 15 de julho, mas a intenção era antecipar isso para 5 de junho, uma semana antes do jogo de abertura do Mundial, entre México e África do Sul, no Estádio Azteca. Esse tipo de decisão não seria novidade levando em consideração só o calor, mas a realização da Copa do Mundo é um componente raro.
— No contexto deste evento, deste grande momento que nosso país está prestes a vivenciar — e considerando que muitos mexicanos amam futebol e aguardam ansiosamente a Copa do Mundo — esta proposta foi feita para antecipar as férias, mas também precisamos levar em conta o calendário escolar das crianças — comentou a presidente do México, Claudia Sheinbaum, na última sexta-feira.
Além disso, as autoridades levaram em consideração o provável impacto no já complicado trânsito das sedes, Cidade do México, Guadalajara e Monterrey, de turistas e das delegações das seleções da Copa. Há problemas nos serviços urbanos mesmo e período de baixo turismo. O país realizará 13 dos 104 jogos do Mundial 2026 e espera atrair até 5 milhões de turistas internacionais.
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Presidente do México, Claudia Sheinbaum, durante evento sobre segurança na terça-feira
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A proposta foi muito criticada por associações de pais e professores, empresas e dois governos estaduais. Cerca de 90% dos estudantes no país frequentam escolas públicas. Parte da indignação tem a ver com a ligação explícita que autoridades fizeram com a Copa do Mundo, evento considerado por muitos não prioritário.
— Usar a Copa do Mundo da Fifa como argumento para encurtar o calendário escolar é inaceitável. A educação de nossas crianças não pode ser sacrificada por um evento esportivo que acontecerá em apenas três dos 2.500 municípios do país. Por que afetar 23 milhões de estudantes com esse pretexto absurdo? — afirmou a União Nacional de Associações de Pais do México.
A decisão de antecipar as férias caiu na segunda-feira, após reunião de representantes do governo com educadores e pais. O receio era de que tal medida impactasse negativamente o aprendizado e trouxesse dificuldades para o cuidado com as crianças. Oito em cada 10 das 7,2 milhões de famílias com pai ou mãe solteiros são chefiadas por mulheres.
— Isso não foi bem recebido. Como sacrificar a educação, de um país que está atrasado nesse sentido, por uma Copa do Mundo? Nós que estamos dentro do meio esportivo vemos relevância no tema da Copa, mas para os que não estão, há coisas muito mais relevantes, como isso do calendário escolar — comentou o jornalista Jorge Bustos, do “Record”.
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Em 2023, quando o México enfrentou outra onda de calor, 18 estados do país suspenderam aulas presenciais e adiantaram o encerramento do ano letivo, impactando a vida de 13 milhões de crianças.
O México atravessa no momento a sua segunda onda de calor em 2026, com temperaturas acima dos 45 °C em diversos estados. O Serviço Meteorológico Nacional do México alertou que o calor extremo persistirá nos meses de junho (com chuvas que podem atenuar o cenário) e julho, o que poderia colocar em risco a saúde de mais de 23 milhões de habitantes, especialmente em escolas com infraestrutura precária.
O caso reflete a crescente complexidade de realizar eventos esportivos diante de condições do clima cada vez mais hostis.
— De forma geral, pessoas que trabalham ao ar livre, atletas e a população mais pobre são mais expostas devido à falta de acesso a meios para resfriamento e baixa qualidade do isolamento térmico das moradias, por exemplo. Por causa do aquecimento global, os eventos extremos, como ondas de calor, estão se tornando mais frequentes e intensos. Para aumentar nossa resiliência a ondas de calor é necessário repensar as cidades. Criação e ampliação de espaços verdes e azuis porque vegetação e corpos d’água são eficazes em resfriar o ambiente — comentou Karina Bruno Lima, doutora em Climatologia e pesquisadora visitante na Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha.
O México tem aquecido a uma taxa de 3,2°C por século, acima da média global, e se posicionado como um dos territórios mais vulneráveis às mudanças do clima, de acordo com o Centro Universitário Transdisciplinar para a Sustentabilidade da Universidade Ibero-Americana (CENTRUS). O país quebrou recordes de temperaturas altas em 2026, segundo dados da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos.
Diante de um cenário de altas temperaturas, as recomendações são: beber muita água; usar roupas claras e leves; não se expor ao Sol durante muito tempo; aplicar protetor solar.
* Esta matéria faz parte do quadro “Clima em Jogo”, do Redação sportv.
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