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Opinião: alertas das vitórias são capitais na primeira derrota da Lusa na Série D

Opinião: alertas das vitórias são capitais na primeira derrota da Lusa na Série D

Chateia e cansa mesmo. Ficar repetindo as mesmas preocupações a cada rodada não é legal. Ninguém gosta. Nem quem o faz. Afinal, não é pelo simples prazer de criticar, por exagerar ou por ter um trauma. É apenas a percepção de quem está assistindo.
Alertas de quem não deseja, uma vez mais, desperdiçar uma temporada e permanecer na Série D para 2027. De quem sabe que a primeira fase precisa ser usada para encontrar e encaixar o time, corrigir erros, minimizar falhas, chegar ao mata-mata preparado.
Quem acompanha a trajetória da Portuguesa nesta quarta divisão do Campeonato Brasileiro, infelizmente, viu o futebol dar razão aos apelos de que não se pode desligar em momento algum e que se deve aproveitar cada chance de resolver um jogo.
A derrota para o Madureira-RJ por 1 a 0, fora de casa, fica marcada não apenas como a primeira da Lusa na atual edição da Série D, mas principalmente como aquela em que as preocupações da torcida foram absolutamente decisivas para o placar final.
Madureira x Portuguesa
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
O técnico Ademir Fesan contou com retornos de dois dos seis contundidos da rodada anterior: o lateral esquerdo Salomão retomou a titularidade, deixando Lucas Hipólito no banco, e o atacante Cauari foi novamente relacionado, sendo opção entre os reservas.
Diante de um completo silêncio da SAF rubro-verde em relação aos contundidos, assim foi possível concluir que os outros quatro ainda não reúnem condições físicas de jogo: o zagueiro Gustavo Henrique, e os meias Denis, Felipe Tontini e Thiaguinho.
Além disso, o treinador decidiu fazer um teste e escalar João Paulo como titular na meta. Com pouco mais de um ano de Portuguesa, o goleiro ainda não havia estreado. A justificativa oficial é de que Fesan quer dar rodagem e minutagem a todo o elenco.
No entanto, é senso comum no Canindé que o titular, Bertinato, principalmente após a falha na eliminação rubro-verde na Copa do Brasil, vem se mostrando inseguro e sem confiança. Parte da torcida, inclusive, cobrava por essa chance a João Paulo.
Ademir Fesan, técnico da Portuguesa, contra o Madureira
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Pode-se questionar se um jogo fora de casa, em um terreno desconhecido, seria o cenário ideal para se fazer isso. Contudo, é indiscutível que o momento de testar e conhecer é agora, na primeira fase, com a classificação praticamente garantida, etc.
No primeiro tempo, a Portuguesa teve a bola e a iniciativa das ações. O volume de jogo foi rubro-verde. O problema é que a equipe treinada por Ademir Fesan mostrou dificuldades para arrematar, finalizar, levar perigo, buscar efetivamente o gol.
O Madureira-RJ, mesmo em casa, talvez até por conhecer o campo pesado e aquela sensação térmica de 38ºC na sombra, foi mais cauteloso e guardou a velocidade para os contragolpes, tentando se aproveitar das bolas perdidas (ou desperdiçadas) pela Lusa.
O intervalo veio e as conversas na arquibancada visitante do estádio da Rua Conselheiro Galvão tinham como foco a dificuldade da Portuguesa em furar a defesa fechada do Madureira-RJ e levar perigo real. Eram, no máximo, arremates de longa distância.
Madureira x Portuguesa
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Veio o segundo tempo e, já com o sol baixando, o time da casa foi se soltando. A Lusa pareceu ter reduzido o ritmo, não se sabe se por postura ou cansaço físico. Mesmo assim, os liderados de Ademir Fesan continuaram tendo a bola e as iniciativas.
E, diante de um Madureira-RJ que deixava um pouco mais de espaços, também buscando o ataque, começaram a surgir as chances da Portuguesa. É verdade que a maioria, mais uma vez, em arremates de longe ou cruzamentos à área.
E ali a Lusa poderia muito bem ter não só aberto o placar como resolvido o jogo. Teve bola na trave. Teve bola rente à trave. Teve goleiro salvando ao pé da trave. Teve bola saindo caprichosamente da direção do gol. E teve muita, mas muita finalização torta.
O Madureira-RJ, por outro lado, levava perigo em jogadas de velocidade, mas nada avassalador. O grande momento havia sido uma finalização de longe, que ia certinho no ângulo, em que João Paulo se esticou todo para fazer uma excelente defesa. Mesmo.
Só que a ladainha dos últimos jogos ia se formando. Já havia chances desperdiçadas o bastante. Faltava o apagão defensivo. Veio aos 38 minutos da etapa final, quando nove a cada dez espectadores apostavam que o empate sem gols seria o resultado final.
Falta pela direita. Bola alçada para a área da Portuguesa. Cadorini não subiu a fim de pedir impedimento. Hipólito estava a frente dele, sem combate. Entre ambos, dois do Madureira-RJ. João Paulo, em meio a esse cenário, saiu. Totalmente estabanado e atabalhoado. Coutinho cabeceou para o fundo das redes: 1 a 0 para o Madureira-RJ.
Claro que, ao assistir ao gol, todas as atenções se voltam para a saída de meta de João Paulo. Foi muito mal. Acabou arranhando uma estreia que, salvo por algumas saídas meio afobadas, vinha sendo relativamente boa e até com a defesa mais difícil do jogo.
Madureira x Portuguesa
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Porém, não só isso chama atenção. A postura defensiva do time rubro-verde naquele cruzamento é qualquer coisa de inacreditável. Como se fosse em um treino, ou em uma jogada em que não se ouviu o apito, não se viu o cruzamento, enfim, surreal.
Uma hora ou outra isso ia acontecer. Nem sempre as falhas defensivas vão render “só” um gol de honra ou um empate fora de casa. Nem sempre perder chances só vai impedir que o time vença por um placar mais elástico. Isso vai custar derrota. Custou.
Não é exatamente honesto tratar os dois jogos com o Madureira-RJ como um mata-mata, ida e volta, afinal, o espírito dos embates e o cenário dos estádios seria outro. Mas pensemos nos placares: refletem a disparidade técnica dos dois elencos e/ou a posse de bola, o volume de jogo, as chances criadas? Não. Isso pode ser, como foi, capital.
Obviamente que os problemas da Portuguesa não se resumem apenas a isso. Percebe-se uma insegurança em torno do goleiro titular, tem-se uma zaga que mesmo com a dupla principal sofre gols jogo sim, jogo também, nota-se um meio-campo extremamente dependente de um jogador só, Portuga, e um ataque que pede algum protagonismo.
É sempre bom reforçar que Série D é praticamente sinônimo de jogo feio, amarrado, truncado, assim como de nível técnico médio baixíssimo. Portanto, não há como esperar que até um hipotético melhor time não sofra de lacunas, desequilíbrios, etc.
Por isso, inclusive, é tão importante aproveitar as chances que aparecem e não dar vacilos absolutamente evitáveis. Só que, na Portuguesa, mesmo ponderando isso tudo, é preciso olhar para o elenco com algum nível de critério. Faltam peças importantes.
Uma delas no meio-campo. Tanto de destruição e liderança quanto de transição e construção. Portuga, que se encontrou como volante, tem estado sobrecarregado. Fesan aparentemente tem tentado extrair dele o máximo, na marcação e na armação. Só que aí o cobertor fica curto para um lado ou pra outro. Ou o meio fica nu, quando ele sai.
Cecchini e Hudson, na destruição, infelizmente, vão desperdiçando uma chance atrás de outra de mostrarem que são nomes em potencial. João Diogo, na ligação, vem se mostrando extremamente dedicado, empenhado, ligado, mas não é exatamente a dele. Vai ser Thiaguinho, que ainda não mostrou grande coisa? Ou Tontini, que mal jogou?
Isso preocupa. Tanto quanto no ataque. A beirada direita carece de qualidade técnica. Igor Torres é esforçado, dedicado, mas só. Cauari precisa daquele toque de inspiração ao entrar. Se não, mostra o que mostrou nessa derrota: até passe para fantasma.
Cadorini, que deveria ser aquele centroavante de referência, pivô, empurrar para o gol, vai liderando com folga o ranking de jogador com mais chances claras desperdiçadas. E a principal decepção da Portuguesa nesta Série D: o atacante Maceió.
A Lusa chegou à sexta rodada e Maceió ainda não estreou efetivamente. Salvo por um ou outro lampejo, como o cruzamento para o gol contra o Água Santa, ou o gol de rebote diante do Madureira-RJ no Canindé, tem desaparecido em campo.
Nessa derrota, em Conselheiro Galvão, chamou atenção não só essa postura apagada dele, mas principalmente as finalizações totalmente sem pontaria. Nem sombra daquele atacante que, no Paulistão, foi um dos principais destaques do time rubro-verde.
Não. Não se pode pegar uma derrota, a primeira do campeonato, e transformar em caos, em terra devastada, em temporada perdida. É preciso resistir à tentação de, na frustração totalmente justificável da derrota, achar que nada presta e que tudo é ruína.
No entanto, também não se pode ir ao outro extremo, que é tratar as vitórias como a peneira a tapar o sol. Ou tratar os alertas, as considerações, as críticas como meros exageros ou traumas. Há, sim, pontos que precisam ser corrigidos para o mata-mata.
O que aconteceu na sexta rodada, em mata-mata, é eliminação. E não foi pontual. Foi só repetição. Faltam quatro jogos na fase de grupos. Essa derrota tem de ser pedagógica e dar um basta em algumas situações. Pede-se da SAF, revisão do elenco; da comissão técnica, solução; do grupo, protagonismo; da torcida, senso de realidade.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More