Por que apenas Nova Iorque terá ingressos populares na Copa do Mundo
As coisas andam boas para o prefeito de Nova Iorque, o jovem Zohran Mamdani, 34, um dos principais nomes do partido Democrata na atualidade e um dos mais vorazes opositores ao governo de Donald Trump.
Na mesma semana em que comemorou o título do Arsenal na Premier League, seu clube do coração, depois de 22 anos de seca, o alcaide de um dos maiores centros financeiros do planeta anunciou um importante acordo com a FIFA: garantiu ingressos mais baratos para sete dos oito jogos da Copa do Mundo no MetLife Stadium.
Serão sorteados 1.000 ingressos para cada um dos jogos no MetLife Stadium, que custarão 50 dólares, valores muito menores do que os ofertados até então. Os sortudos poderão adquirir um segundo ingresso (na expectativa de que adultos levem seus filhos) e terão de comprovar que são residentes da cidade de Nova Iorque.
O acordo entre prefeitura de Nova Iorque e FIFA aconteceu apesar do estádio estar localizado na cidade de East Rutherford, no estado vizinho de New Jersey – distante cerca de 30 km. Também ocorre a despeito do comitê organizador local, representativo dos dois estados (NY/NJ), não ter atingido acordos semelhantes.
O MetLife receberá ao todo 8 jogos, inclusive a grande final, que será a única ocasião onde os ingressos populares não serão disponibilizados. Cidadãos comuns (os trabalhadores, nas palavras de Mamdani) poderão frequentar 5 jogos de primeira fase, incluindo a estreia do Brasil contra Marrocos, um jogo da segunda fase (16 avos) e um jogo das oitavas-de-final.
Apesar de representarem uma parte ínfima do público (menos de 2% da capacidade), esses ingressos populares terão grande relevância em uma Copa marcada pelos preços abusivos. Os ingressos da Categoria 3, a menos cara disponibilizada pela FIFA, começaram entre 220 e 355 dólares – e foram majorados abruptamente logo em seguida, graças ao controverso sistema de revenda interno da FIFA, onde a entidade aplicou uma taxa de 15% sobre revendedores e compradores.
A única cota de ingressos a valores mais razoáveis, chamada de Categoria 4, foi destinada exclusivamente às associações oficiais de torcedores dos países participantes, por 60 dólares. Diferentemente do que ocorreu nas Copas passadas, a edição Estados Unidos, México e Canadá não garantiu uma cota de ingressos populares para residentes.
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O anúncio da política de ingressos populares aconteceu, astutamente, na comunidade de Little Senegal, localizada no bairro do Harlem, em Manhattan, o burgo mais densamente povoado de Nova Iorque. A localidade recebeu esse nome justamente por ser um reduto de imigrantes da África Ocidental, e a escolha não se deu à toa: a seleção de Senegal, classificada para a Copa, jogará contra França (16/6) e Noruega (22/6) no MetLife Stadium, pela fase de grupos.
O evento do anúncio ainda contou com a presença de Timothy Weah, um dos principais jogadores da seleção dos EUA, que nasceu justamente em Nova Iorque, no Brooklyn. Filho de George Weah, lendário ex-jogador do Milan e da Libéria (e presidente do país!), Timothy esteve entre os jogadores que questionaram a política de ingressos anteriormente – e que foram descredibilizados pelo próprio treinador, o argentino Mauricio Pochetino.
Zohran Mamdani também aproveitou o vácuo deixado pelo governo Trump e conseguiu acordos que reduziram consideravelmente os custos do transporte para os jogos no MetLife Stadium. Viagens de ônibus de ida e volta para os jogos custarão 20 dólares, 25% do valor previsto para o esquema criado pelo comitê local da Copa para detentores de ingressos.
A opção mais cara buscava, na verdade, ser uma opção alternativa e pretensamente menos custosa do que as viagens de trens, que estavam na ordem de 150 dólares – por uma decisão do governo de New Jersey, que questionava a total recusa da FIFA em contribuir com os custos dos serviços públicos durante a Copa (entenda mais aqui). Detentores de ingressos populares terão transporte gratuito, por sinal.
Filho de intelectuais indianos, nascido em Uganda e adepto do islamismo, Mamdani adota um perfil político progressista com forte discurso voltado para os direitos dos trabalhadores, na criação de políticas de moradia popular e no apoio aos pequenos negócios em Nova Iorque. O que lhe conferiu a pecha de “socialista”.
Não por acaso, Maya Handa, a chefe da sua campanha vitoriosa, posteriormente nomeada como principal representante da sua gestão na articulação para a Copa do Mundo, definiu o acordo por ingressos populares como um conquista “porque o prefeito estava determinado a garantir que trabalhadores de Nova Iorque estivessem nas arquibancadas quando a Copa do Mundo chegasse: uma criança do Bronx, um vigia do Queens ou um garçom do Brooklyn poderão entrar no estádio nesse verão porque a cidade lutou para que eles estivessem lá”.
À parte de ser um apaixonado pelo “soccer” e ter aproveitado a Copa para criar diversas iniciativas de integração, como campos de futebol e fan fests gratuitas, Mamdani percebeu a oportunidade de atuar com firmeza contra a política abusiva dos preços dos ingressos elaborada pela FIFA como uma plataforma perfeita para suas ideias progressistas.
Após anos de relação estreita e controversa entre Gianni Infantino e Donald Trump – com direito a entrega de prêmio FIFA da paz, visitas recorrentes à Casa Branca e presença em eventos políticos do MAGA –, a Copa do Mundo de 2026 começa com manchetes favoráveis a um improvável novo protagonista.
De acordo com o site The Athletic, a ponte entre Mamdani e Infatino, que abriu as portas para o acordo dos ingressos populares, teria acontecido graças à figura de Arsene Wenger, ex-treinador do Arsenal e hoje figura relevante dentro da FIFA. Mamdani declarou em algumas oportunidades que Wenger um ídolo de infância e os dois estiveram em contato ao longo do último ano.
O futebol é um caixinha de surpresas e a Copa do Mundo é um evento tão contraditório quanto suscetível às grandes jogadas políticas.
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