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A Copa do Mundo é uma oração ao tempo

A Copa do Mundo é uma oração ao tempo

Histórico Estádio Azteca vai receber a sua terceira abertura de Copa do Mundo
Olho para minha filha de cinco anos e me pergunto se ela guardará alguma lembrança da Copa do Mundo de 2026; olho para a barriga da minha esposa e penso se um dia meu filho gostará de dizer, todo orgulhoso, que nasceu em ano de Copa.
Às vezes tenho a sensação de que organizo minha memória em blocos de quatro anos. Onde eu morava em 1990? Penso na Copa do Mundo. Quem eu namorava em 2002? Penso na Copa do Mundo. De quem eu era amigo em 1994? Penso na Copa do Mundo. Onde eu trabalhava em 2006? Penso na Copa do Mundo.
+ Veja a tabela da Copa do Mundo
Lembro mais das Copas da minha infância do que daquelas que cobri como jornalista. Talvez lembre mais da primeira que registrei na lembrança – a de 90, quando eu tinha oito anos – do que da última.
Está tudo guardado aqui dentro: preencher os resultados a lápis em uma tabela de papel; escrever Tchecoslováquia e Iugoslávia quando elas passaram para as oitavas de final; mascar Ping-Pong como se não houvesse amanhã por causa das figurinhas; retirar a bandeira do Brasil da casa dos meus avós em Garibaldi na eliminação para a Argentina; ser chamado pelo vô, às gargalhadas, quando Higuita perdeu a bola para Roger Milla; decidir jogar bola de gude na hora da final, depois de ter assistido a quase todas as partidas, e ser avisado pelo meu pai de que havia pênalti para a Alemanha – e aí correr as escadas em disparada para chegar a tempo de ver a cobrança de Brehme.
Taça da Copa do Mundo
Reuters
A Copa do Mundo é uma oração ao tempo, esse senhor tão bonito. Talvez um dia venhamos a esquecer nossos lugares mais marcantes, os trejeitos de pessoas que amamos, a voz de nossos pais, o cheiro de nossos filhos, o sabor de nossa comida preferida. E lembremos de Romário encurvando as costas para o chute de Branco passar; de Galvão gritando “Taffareeeeeeel”; do cabelo cascão de Ronaldo; de Zidane e de Henry; do assombro diante de nossa maior derrota; de Messi perdendo, feito um humano, para depois ganhar, como uma divindade.
A Copa do Mundo é uma oração ao tempo e também uma devoção à infância. Levo minha filha à escola, vejo as crianças carregando os álbuns, trocando figurinhas, jogando bafo – e sou imediatamente transportado ao passado.
Gostaria de ser como elas: de não me atentar a esquemas táticos e estatísticas, de não pensar em polêmicas vazias, de não me preocupar com a geopolítica ditada por líderes insanos, de não me contaminar por algoritmos, influenciadores, pseudocelebridades. De só viver o jogo.
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“Por que tu vê tanto futebol, pai?”, minha filha perguntou dias atrás. “Porque eu trabalho com isso”, respondi. Mas não era totalmente verdade. Um dia, poderei explicar para ela (e para o irmão dela) o verdadeiro motivo. Que está tudo ali: a longa tessitura dos melhores romances, a pulsão humana do teatro de Shakespeare, a orquestra perfeita, a leveza do balé, a explosão do rock, a estratégia da guerra, o caos da vida, a permanente iminência da morte. A beleza.
Mas isso é lá para frente, lá para o futuro. Por enquanto, me darei por satisfeito ao vesti-la com a camisetinha da Seleção, ao comer pipoca com ela vendo os jogos na tevê, ao jogá-la para cima na comemoração de algum gol – e, quem sabe, ao transformar tudo isso em suas primeiras lembranças de uma Copa do Mundo. geRead More