Das ameaças à classificação: RD Congo muda imagem de 50 anos com feito inédito em Copas
Veja os melhores momentos de RD Congo 3 x 1 Uzbequistão
O mundo inteiro zombou o zagueiro Mwepu Ilunga por chutar uma bola longe, em 1974, sem saber que a seleção inteira estava ameaçada de morte. Meio século depois, agora com outro nome, outras cores e outro regime político, a RD Congo tem uma nova imagem mais marcante em Copas do Mundo: os gols de Wissa contra Portugal e Uzbequistão, com classificação inédita à segunda fase.
Esta é a segunda participação da República Democrática do Congo em Copas, mas é como se fosse a primeira. Em 1974 o país se chamava Zaire, tinha outra bandeira e outras cores sob uma ditadura que matou centenas de milhares de pessoas. Na Copa na Alemanha, a seleção enfrentou o Brasil ameaçada pelo regime, e o chute para longe de Ilunga era um grito de desespero.
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Congoleses celebram vaga histórica no mata-mata da Copa do Mundo
REUTERS/Bernadett Szabo
Corta para 2026. A vitória inédita em Copas, por 3 a 1 sobre o Uzbequistão, coloca os congoleses na segunda fase da Copa do Mundo. De virada, com a devida dramaticidade e três gols marcados em 25 minutos. Agora quem vem pela frente é a poderosa Inglaterra, quarta-feira, às 13h, mas já não importa, porque os congoleses têm uma página nova da qual se orgulhar.
O empate por 1 a 1 com Portugal já tinha sido histórico, o primeiro ponto do país em Copas do Mundo, mas contra a Colômbia a retranca não funcionou. No último sábado (27), uma vitória bastava para a classificação ao mata-mata e foi o que aconteceu, com virada no segundo tempo, cenas de êxtase e choro dos jogadores em campo. Uma classificação de peso não só esportivo, mas também histórico.
– Significa que podem ter orgulho do seu time. Hoje, como sempre, fizemos o que tínhamos que fazer. Cedemos um gol cedo, mas conseguimos a motivação para virar. Conseguimos mostrar uma boa imagem da RD Congo – celebrou o técnico Sébastien Desabre ainda no estádio de Atlanta.
Mas nem tudo vai bem na RD Congo. O nome é muito mais democrático do que o sistema político em si. Em um índice internacional que mede a saúde das democracias (o Economist Group), trata-se da 11ª pior colocada (1,92 pontos em dez possíveis). Há uma guerra civil no leste do páis, e o governo do presidente Félix Tshisekedi é acusado de corrupção, abusos de forças militares, censura e outros autoritarismos.
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Do desespero ao orgulho nacional
Em 1974 o país vivia sob o regime totalitário do ditador Mobutu, que na década anterior havia derrubado o presidente democraticamente eleito, Patrice Lumumba, e tomado o poder. Tudo com apoio da Bélgica e dos Estados Unidos.
O regime duraria mais de 30 anos, marcado por execuções públicas, massacres de estudantes e perseguições de todo tipo. O número preciso de vítimas nunca foi calculado, mas calcula-se na casa das centenas de milhares.
Foi neste contexto que a seleção do Zaire foi disputar a Copa do Mundo de 1974. A ela foi prometida muito dinheiro de premiação, mas nada se cumpriu, e os jogadores entraram desmotivados. Perderam a estreia para a Escócia por 2 a 0, depois por 9 a 0 da Iugoslávia e então enfrentariam o Brasil. Aí as ameaças chegaram: se tomassem mais uma goleada, seriam mortos.
Com 3 a 0 no placar, a cena clássica daquela Copa do Mundo virou chacota mundial. Antes de Rivellino cobrar uma falta, o zagueiro Mwepu Ilunga saiu correndo da barreira e chutou a bola para longe. Todo mundo tomou a ação como algo risível, de um jogador que não conheceria as regras, mas era um protesto.
— Fiz aquilo deliberadamente. Não tinha motivo para continuar me machucando enquanto aqueles que se beneficiavam financeiramente (da ditadura) estavam sentados nos camarotes assistindo — disse Ilunga à BBC em 2010.
O chute para longe de 1974 foi dominado por Yoane Wissa mais de 50 anos depois. Em um contra-ataque da República Democrática do Congo (e não do Zaire), o camisa 20 fez um lindo gol, o terceiro gol contra o Uzbequistão, e garantiu a classificação à segunda fase da Copa. geRead More


