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Esquecer Garrincha é apagar uma parte do Brasil

Esquecer Garrincha é apagar uma parte do Brasil

Pouco tempo atrás, a pesada evidência da passagem do tempo me foi arremessada na caixa como um tijolo incandescente, simplesmente impossível de matar no peito e sair jogando. Estava praticando o ócio nas redes sociais quando, do nada, aparece a pergunta fatídica: “será que Taffarel era tudo isso?”
Admiração por Garrincha fez Cid Moreira torcer pelo Botafogo
Vou dizer baixinho pra vocês que tenho idade suficiente para ter visto Taffarel jogar no Beira-Rio, quando defendia o Inter. Depois da vertigem, mastiguei o absurdo de se questionar o maior goleiro da história da Seleção e, por fim, percebi o óbvio. As gerações se sucedem, o passado vai ganhando outras roupas e algumas impressões vão se desmanchando pelo caminho.
Eis que, na véspera da Copa do Mundo, outra questão se ergueu no horizonte. Ainda mais pesada e mais dolorosa, pois não se trata de uma pergunta, mas de um gradual apagamento, e envolve uma figura muito maior do que o lendário arqueiro gaúcho: o abraço do esquecimento está atingindo Garrincha. Nas listas de maiores de todos os tempos que pipocam de todo lado nesse momento, em peças publicitárias feitas aqui mesmo no Brasil, às vezes até mesmo pela CBF, no próprio imaginário coletivo de uma geração que cresce com outros parâmetros de futebol.
E, de pronto, surge a indagação inevitável: entre tantos, por que justamente Garrincha? Por que um dos únicos que deveria, em sentido contrário, ser mais celebrado a cada dia? É provável que a resposta aponte na direção da própria transformação do futebol, hoje muito apegado às questões táticas e às revoluções teóricas, ainda que dentro do campo de jogo. Por isso, com razão, Johan Cruyff tem seu legado respeitado até hoje. Por isso, Pep Guardiola é visto como um semideus da prancheta.
É uma batalha árdua, mas que precisa ser travada por quem ao menos tentou conhecer um pouco da vida e da obra do maior ponta-direita da história do futebol. Garrincha simplesmente é o futebol brasileiro (assim mesmo, no presente). Se Pelé representou toda a majestade imaginável dentro das quatro linhas, o mais famoso pau-grandense da história é a própria encarnação de um ideal brasileiro de jogar bola — e, por que não, um ideal de como o brasileiro decidiu olhar para o mundo. O homem para quem o drible era um espasmo. Um dos únicos que fez a arquibancada sorrir, e não apenas no sentido metafórico.
A biografia “Estrela solitária — Um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Castro, é um livro fundamental não apenas para quem gosta de futebol, mas para aqueles que pretendem conhecer um pouco mais sobre a complexidade social do Brasil. Uma das passagens mais sublimes é o trecho que fala da estreia de Garrincha na Copa de 1958, a primeira vez que era escalado em um Mundial junto a Pelé, sua alma gêmea em campo e absoluto oposto fora dele.
O começo do jogo contra a temida União Soviética foi definido pelo jornalista Gabriel Hanot, que estava no estádio, como “os melhores três minutos que o futebol já presenciou” — com poucos segundos, Garrincha já havia deixado três soviéticos capotados pelo caminho para castigar a trave de Yashin. Aquele momento, simbolicamente, representou o nascimento do futebol brasileiro, e o atacante do Botafogo era o autor do parto, escrevendo com as pernas tortas todas as possibilidades imagináveis sobre a grama.
Conforme Vicente Feola, primeiro técnico campeão do mundo, Garrincha tinha uma espécie de “inconsciência” diante do mundo. Esse estado de espírito fez com que deixasse o célebre Nilton Santos esfarelado nos primeiros treinos pelo Botafogo, mas com o passar do tempo também provocou o caos financeiro que foi um dos principais motivos de sua ruína.
A vida também foi marcada por algumas rasteiras do destino, o único zagueiro impossível de driblar: os joelhos sucumbiram muito cedo; os amigos não foram tão amigos assim quando o auge passou. O mundo mostrou-se hostil com aquele personagem complexo que, quando havia ganhado muito dinheiro, voltou para Pau Grande e dirigiu-se até o mercado local com uma sacola cheia de dólares para pagar o que os vizinhos estavam devendo.
No entanto, o mesmo Garrincha de alma indomável, refém do alcoolismo, inegociavelmente inocente, tornou-se, durante alguns dias, o gênio absolutamente centrado que jogou por ele e pelo lesionado Pelé para ganhar o bicampeonato de 1962, marcando gols de tudo que era jeito e colocando-se, ao lado de Maradona, como o jogador mais determinante em uma edição de Copa do Mundo. O argentino, aliás, é um dos poucos que podem ser comparados a Garrincha: ambos transformaram os maiores estádios do mundo em campinhos de bairro e demonstravam uma humanidade excessiva, quase transbordante.
Enquanto dobrava o impossível e o colocava no bolso ao vestir a camisa sete, Garrincha carregava nas costas todo o esplendor e a miséria da condição humana. E talvez a impiedosa ironia esteja no fato de que Garrincha corre o risco de ser esquecido exatamente porque o futebol moderno não é capaz de reproduzi-lo. geRead More