Gazela Negra, 89 anos, trava batalha para acompanhar filha em missão oficial nos EUA
Filha de Gazela Negra compartilha luta para levar a mãe em mudança para os EUA
Prestes a completar 90 anos, Érica Lopes, a Gazela Negra, corre o risco de ser afastada de sua única parente viva. Considerada uma das maiores velocistas da história do Flamengo, campeã brasileira e medalhista nos 100 e 200 metros rasos, a ex-atleta trava uma batalha judicial para conseguir acompanhar a filha, Érica Simone Resende, em missão oficial nos Estados Unidos.
Concursada da Escola Superior de Guerra (ESG), na área de Ciência Política, Simone foi a primeira professora da instituição convidada a integrar o corpo docente do Colégio Interamericano de Defesa (CID), em Washington. Segundo ela, a ESG, no entanto, não reconheceu Érica, a Gazela Negra, como sua dependente legal, o que impede a concessão dos documentos necessários para que a ex-atleta permaneça com Simone durante todo o período da missão. A ESG informou, em nota ao ge, ter requisitado comprovantes da dependência econômica de Érica Lopes, mas que a filha optou pela justiça antes da sequência administrativa (leia a nota completa da Escola Superior de Guerra na reportagem).
Érica Simone e a mãe, Érica Lopes, lutam por documentação para poderem permanecer juntas em missão nos EUA
Arquivo pessoal
– Minha mãe foi atleta, foi técnica de atletismo para os militares na Escola de Educação Física do Exército. A minha mãe foi medalhista brasileira, sul-americana, pan-americana. Ela levou a bandeira do Brasil. Então, ela está sendo tratada como uma inconveniência burocrática. Eles têm que se explicar por que não estão cumprindo a lei, por que não estão reconhecendo – lamentou Simone.
Em missões especiais no exterior, como a de Simone, o Governo Federal costuma conceder passaportes diplomáticos para servidores e seus dependentes. Desta forma, permissões como o visto americano de categoria A2 são facilitadas pelo enquadramento em uma função oficial fora do país.
Por ser a instituição à qual Simone é vinculada, a Escola Superior de Guerra é também o órgão responsável pelo reconhecimento de Érica como dependente legal da filha. Mas, de acordo com a servidora pública, o instituto se negou a conceder o benefício.
Gazela Negra pede resposta do governo a situação que pode separá-la da filha
Com a decisão, a ex-atleta fica impossibilitada de se mudar com a filha para os Estados Unidos, uma vez que restará apenas a possibilidade de solicitar o visto de turismo (B2), que permite a estada contínua de no máximo 180 dias (6 meses). No entanto, o cargo oferecido a Simone tem duração de um ano, com ida marcada para o dia 13 de julho.
Aos 89 anos, Gazela Negra vive luta para conseguir ficar junto à filha nos EUA
Arquivo pessoal
– O coronel comentou que eu hasteei a bandeira do Brasil em nome do meu país, em nome do Brasil. Dei título para o Brasil, e agora, no momento em que eu preciso ser cuidada por uma filha que não está pedindo nada de mais, nem financeiramente, somente o passaporte para continuar cuidando de mim, estão me negando. E já fizeram em outros casos – disse a Gazela Negra.
Portadora de diabetes, a ex-velocista recebe injeções diárias de insulina e toma cerca de doze remédios diferentes por dia, por se tratar de uma paciente renal. A filha, Simone, se encarrega de todo cuidado da mãe, desde 2018, quando Érica ficou viúva.
– Minha mãe é minha curatelada, mora comigo, nós não temos mais parentes. A minha mãe tem o direito previsto em lei decorrente do artigo 5º da Constituição, que é a dignidade humana. Ela tem o direito de manter o laço comigo afetivo, de cuidado e de carinho. O bem-estar é direito do idoso e dever do Estado – contou Simone.
Érica Simone ao lado da mãe, Érica Lopes
Arquivo pessoal
Parte do Ministério da Defesa do Brasil, a ESG segue princípios militares, mas também conta com servidores civis, como Simone. Concursada desde 2018, Simone contou que foi a única da instituição a ser selecionada para a vaga nos Estados Unidos, entre 15 funcionários de diferentes organizações do Governo Federal.
Desde que foi chamada, em fevereiro deste ano, Simone buscou soluções internas para conseguir o direito de levar a mãe consigo para os Estados Unidos, sem sucesso. De acordo com a professora, caso a Escola Superior de Guerra reconhecesse a dependência legal da mãe, a instituição precisaria arcar com passagens e plano de saúde para ela, além de um auxílio familiar mensal de aproximadamente R$ 3,2 mil (640 dólares).
– Eu até me ofereci a assinar um documento abrindo mão desses 600 dólares. Deixei claro que estava ali por causa do passaporte. Porque, depois de seis meses, a minha mãe vai ser o quê? O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega Americano) vai pegar ela? Não estou brigando aqui há meses e gastando dinheiro e tempo por causa de 600 dólares. É por causa do visto americano, porque a minha mãe vai correr risco – explicou Simone.
Gazela Negra posa ao lado de pintura feita em sua homenagem no Flamengo
Arquivo pessoal
Em busca de obter o apoio da ESG, Simone conseguiu a curatela protetiva da mãe na justiça, no contexto da missão no exterior, e descobriu a Portaria de nº 4645, de maio de 2022, que cita os critérios para atestar a dependência econômica em relação ao servidor. A professora reuniu os documentos necessários, como escritura em cartório, declarações de imposto de renda e atestado da equipe médica da mãe, e encaminhou aos seus superiores, mas contou que não foram aceitos como prova.
– Estou tentando há quatro meses fazer a coisa de forma institucional, pedindo uma solução e não consigo. Eu mandei pedido, fiz uma solicitação na ouvidoria. O que fizeram? Mandaram de volta para a ESG. Mandei um e-mail para a controladoria do Ministério da Defesa, não responderam – contou.
Rebeca Andrade e Rafaela Silva posam ao lado de Gazela Negra em evento do Flamengo
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Como agravante, o decreto que regula os direitos de civis e militares em missão no exterior é de 1973 e não reflete as mudanças sociais consolidadas desde então. O texto menciona, por exemplo, a possibilidade de acompanhamento de empregados domésticos, mas não contempla arranjos familiares hoje reconhecidos juridicamente, como a união estável e a união homoafetiva.
– Vi muita gente em missão no exterior levar a empregada doméstica como dependente, sem ter nenhum tipo de objeção, mas eu não tenho o direito de levar a minha mãe de 90 anos, aparentemente. Absurdo. O decreto só faz menção ao servidor e à esposa, por exemplo. Por que em 1973 não havia mulher servidora cujo esposo era dependente – criticou Simone.
Mãe e filha viajam para os Estados Unidos no dia 13 de julho, sem nenhum tipo de segurança sobre o futuro da Gazela Negra ao fim do prazo de seis meses, estabelecido pelo visto de turista – que ainda nem é garantido, visto que a entrevista com o Consulado Americano será realizada na próxima semana. Simone diz que será preciso abandonar o que chamou de “a melhor oportunidade de sua vida”, caso Érica não receba os documentos necessários até esse prazo.
A nota da Escola Superior de Guerra
Com relação à demanda recebida informo que a Escola Superior de Guerra solicitou, por meio de despacho decisório deste Comando, a documentação necessária para comprovação da dependência econômica da Sra. Érica Lopes. No entanto, antes de entregar a documentação solicitada, a docente judicializou o pleito, impedindo, a partir de então, que a Escola pudesse dar sequência administrativa à demanda. Considerando que atualmente o processo está em trâmite perante a Justiça Federal, é necessário que se aguarde a decisão judicial. Tal informação já foi transmitida à professora Érica por meio de despacho decisório deste Comando.
Relembre a história da Gazela Negra
Considerada a ex-velocista mais vitoriosa da história do Flamengo, Érica Lopes da Silva nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e começou a se destacar nas provas de 100 e 200 metros rasos pelo Grêmio. Posteriormente, foi campeã brasileira pelo Internacional. A partir de 1960 passou a defender o clube Rubro-Negro, conquistando o bicampeonato carioca.
Gazela Negra em competição
Arquivo pessoal
Em 1962 e 1965, foi campeã do Troféu Brasil. Em 1963, subiu ao lugar mais alto do pódio no Campeonato Sul-Americano, em Cali, na Colômbia. Recebeu o apelido de Gazela Negra pela imprensa carioca, devido à velocidade que alcançava na corrida. Em 1995 foi homenageada pela escola de samba Estácio de Sá. Três décadas depois, em 2025, foi reverenciada pela Fla Manguaça, escola de samba ligada à torcida do Flamengo, na Série Prata, com o enredo “Coletivo Gazela Negra – O Quilombo Contra o Racismo”. geRead More


