Opinião: Ceará chega aos 112 anos mergulhado em descrença e tem urgência de se reconstruir
Desde o fim de 2025, a história do Ceará vem sendo escrita com capítulos tenebrosos. Um rebaixamento à Série B que aconteceu em 30 minutos e um início de temporada frustrante. O Alvinegro completa 112 anos nesta terça (2) sem motivos para comemorar.
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Nada ainda deu certo no Ceará em 2026: desde o esforço financeiro feito para a contratação do técnico Mozart, que chegou ao clube após dois acessos consecutivos, até o uniforme 1 da temporada, que ainda não foi lançado.
Torcida do Ceará em Ceará x Operário-PR
Thiago Gadelha/SVM
Contratações
O ano começou com uma lista de 11 reforços para a temporada de 2026 após o rebaixamento para a Série B. Não dá para esperar um elenco de elite na segunda divisão, mas um aproveitamento de aproximadamente 45% nas contratações também não contenta ninguém.
De 11 contratações, apenas cinco deram certo e são titulares: Luizão, Wendel Silva, Júlio César, Fernando e Alex Silva. Os outros seis tiveram inconstância na equipe: Gustavo Prado, Sanchez, Ronald (atuou em apenas 28 minutos), Matheusinho, Jorge Meurer (nunca atuou) e Juan Alano.
Mesmo quando Bruno Ferreira estava muito mal embaixo das traves, a presença de Jorge Meurer sequer foi cogitada.
Jorge Meurer em treino no Ceará
Felipe Santos/Ceará SC
O zagueiro Ronald, por sua vez, foi anunciado pelo Ceará no dia 6 de fevereiro. No entanto, a presença do jogador no elenco é irrelevante. Ronald atuou no dia 22 do mesmo mês por 28 minutos. Desde então, nunca mais jogou e oscila entre entradas e saídas do departamento médico.
O zagueiro entrou no DM no dia 21 de março, com desconforto na parte posterior da coxa esquerda, e lá permaneceu por seis jogos. Seguiu sem atuar, retornou ao departamento médico no dia 28 de março e nunca mais saiu. Erros que pesam na folha salarial, indignam a torcida e expõem uma montagem de elenco extremamente questionável.
Ronald Carvalho pelo Ceará
Gabriel Silva/CearáSC
Competições frustradas
Além das contratações que não deram certo, no dia 8 de março o Ceará ficou com o vice-campeonato cearense. Primeira meta em que fracassou. Na Copa do Nordeste, o Alvinegro foi eliminado pelo Vitória. Caiu nas quartas de final, quando a meta era chegar à semifinal.
Vitória x Ceará – Quartas da Copa do Nordeste – Barradão
Jhony Pinho/AGIF
Na Copa do Brasil, caiu para o Atlético-MG na quinta fase, quando o objetivo era alcançar as oitavas de final. Frustrante. Não conquistou nenhum objetivo em cinco meses de trabalho. Em momento algum expôs, dentro de campo, que queria conquistá-los. Com exceção do Campeonato Cearense, em que o nível técnico dos adversários é menor, o Ceará não teve regularidade na temporada.
Déficit
Quando os torcedores ainda tinham esperança de que o momento pudesse melhorar, no dia 1º de maio o Ceará divulgou as demonstrações referentes ao ano de 2025 com o maior déficit da história do clube: R$ 85,8 milhões: R$ 80 milhões a mais que o déficit de 2024.
Ceará registra déficit recorde em 2025, 15 vezes maior em relação a 2024
Esse valor despertou ainda mais indignação na torcida. Os alvinegros já não tinham se reaproximado do clube, e o torcedor que estava distante ficou ainda mais.
E o uniforme?
Chegamos em junho, e o uniforme 1 do Ceará sequer foi lançado. Ter o uniforme vai além de movimentar os cofres do clube. É questão de identidade com o torcedor, de pertencimento, de estar em pauta nas conversas entre alvinegros.
Protesto
No dia 26 de maio, a torcida do Ceará esteve presente na sede do clube para realizar um protesto. Os torcedores presentes pediam a saída do presidente João Paulo e cobravam a gestão do clube.
Torcida do Ceará protesta contra gestão na sede do clube
Giovanna Borges/SVM
O momento do clube é preocupante, e a arquibancada cansou de esperar respostas. Após o protesto, a torcida pediu “Público Zero” no jogo diante do Operário-PR.
Público
Foi diante de pouco mais de 4 mil pessoas no estádio que o Ceará passou por mais um vexame na temporada. Acostumado aos piores cenários, recebeu um ainda mais tenebroso. O Ceará foi derrotado de virada, jogando em casa, e encerrou a partida com dois jogadores a menos.
Esse, sem dúvida, foi um dos piores públicos da história recente do Ceará. O clube não tem nenhum tipo de aproximação com a torcida, e a arquibancada é reflexo direto do que acontece dentro de campo.
Elenco carente
O elenco do Ceará ainda carece de peças que deem resultado. Isso está estampado para todos que acompanham o Alvinegro. As laterais seguem como um problema no time. Nenhum jogador da posição consegue cravar titularidade na equipe em decorrência do baixo nível técnico apresentado. Fernando, Sanchez, Alex Silva e Rafael Ramos são algumas das figuras mais questionadas por parte da torcida.
Rafael Ramos em Ceará x ABC
Thiago Gadelha/SVM
Esse problema deixa claro que o Ceará precisa se movimentar na janela de transferências, que abre no dia 20 de julho, e trazer, pelo menos, um jogador para cada lado do campo.
Para além das laterais, o ataque está recheado de peças com repertório vazio. Melk, meia de origem, é quem dá resposta no último terço do campo. O camisa 40, junto com os outros garotos da base, são as figuras aguerridas que restam em um elenco perdido, sem confiança e sem intensidade.
Fernandinho, Gustavo Prado, Lucca, Matheusinho, Wendel Silva e Pedro Henrique. Esse último não teve muitas oportunidades com Mozart, inclusive foi afastado. Os outros receberam muitas oportunidades e mostraram muito pouco.
Gustavo Prado em Ceará x Atlético-MG
Gabriel Silva/Ceará SC
Matheusinho trouxe consigo a esperança da torcida, mas frustrou. Lucca surgiu como oportunidade de mercado do próprio Ceará, o jogador ficaria sem clube no fim da temporada de 2025, fez algumas boas partidas, mas não garante titularidade. Fernandinho foi titular absoluto com Mozart e questionado em praticamente todos os jogos.
Wendel Silva ganhou espaço na “briga” pela titularidade com Lucca, mas também não é um atacante capaz de resolver os problemas ofensivos do time.
Mudança no Departamento de Futebol
No dia 28 de março, após a derrota para o Retrô por 3 a 1, partida em que Vagner Love marcou seu último gol antes da aposentadoria, o presidente João Paulo demitiu Haroldo Martins, Lucas Drubscky e João Paulo Sanches. Era o início de mais uma reformulação no departamento de futebol do clube. Porém, aquela decisão em nada mudou o rumo do Ceará até os dias atuais.
Haroldo Martins e Lucas Drubscky no Ceará
Gabriel Silva/Ceará SC
No dia 6 de maio, em entrevista concedida à Rádio Verdes Mares, o presidente João Paulo não garantiu que o Ceará teria um novo executivo de futebol. Para ele, “reduzir essa despesa” era uma boa opção. Como alternativa, promoveu Alison Henry, até então técnico do Sub-20, Anderson Batatais, auxiliar técnico desde 2024, e Ricardinho, assessor de futebol, para compor o departamento. Além de ter nomeado Gabriel Bedê como diretor de futebol do Ceará.
Presidente do Ceará não garante executivo de futebol em 2026: “Reduzir despesas”
Esses serão os responsáveis pelas contratações na janela do próximo dia 20 de julho. Na primeira aparição à imprensa, Gabriel Bedê fez o pronunciamento do desligamento do técnico Mozart. O discurso foi parcialmente bom, mas o torcedor queria imediatismo. Logo depois falou Ricardinho, ex-jogador, capitão e ídolo do Ceará, que disse: “Interrompemos o trabalho que vinha sendo muito bem feito pelo Mozart”. Se estava tão bem feito, por que interromper?
Ricaesinho, asseessor de futebol do Ceara
Gabriel Silva/Ceará SC
E os jogadores afastados?
Ricardinho e Anderson Batatais deixaram muito claro na coletiva de imprensa realizada na última quinta (28) que a decisão de afastar Vina e Pedro Henrique foi única e exclusivamente de Mozart. Agora, a expectativa é que ambos retornem e se juntem ao restante do elenco. Vina, no entanto, terá que se recuperar de uma lesão.
Vina, Pedro Henrique e Juan Alano em embarque pelo Ceará
Gabriel Silva/CearaSC
Confiança no trabalho
O novo treinador que desembarcar em Porangabuçu terá que resistir e ter muita confiança e convicção em seu trabalho. Vai se deparar com uma torcida desacreditada, que sequer tem motivos para acreditar, com um elenco instável e com uma gestão alvo constante de protestos.
O novo treinador terá que arrumar a casa antes de receber visitas. Terá que pedir contratações, reorganizar a equipe titular e administrar também os problemas do departamento médico.
O desafio é enorme, talvez um dos maiores dos últimos anos em Porangabuçu. Afinal, hoje o Ceará é um clube que precisa se reconstruir. E urgentemente. geRead More


