Presidente cabo-verdiano escolhe figurinha de Raphinha e brinca: “Brasil é um Cabo Verde grande”
Presidente de Cabo Verde descobre álbum de figurinhas da Copa do Mundo
A etiqueta de uma entrevista com o presidente José Maria Neves, de Cabo Verde, deu lugar à informalidade através de um objeto universal, que une crianças, adultos e idosos: o álbum de figurinhas da Copa do Mundo.
A entrevista com o presidente se encaminhava para o fim, no Palácio Presidencial, em Praia, capital de Cabo Verde, quando a reportagem do ge propôs uma brincadeira que poucos chefes de Estado topariam: abrir pacotes de figurinhas da Copa.
Quando abriu o primeiro pacote, José Maria Neves tirou Fabián Ruiz, da Espanha. Na sequência, comemorou como torcedor ter achado um jogador de Cabo Verde.
– João Paulo! – vibrou o presidente de Cabo Verde, cujo país não comercializa o álbum do Mundial.
Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves observa figurinha de João Paulo
Raphael Bózeo
José Maria Neves ganhou de presente a figurinha de Raphinha, camisa 11 da seleção brasileira e brincou ao falar do astro Neymar.
– O Neymar está na Copa, mas não tem figurinha.
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A provocação seguinte foi de propósito. Perguntado em tom de brincadeira quem prefere atualmente: Ryan Mendes, capitão e maior artilheiro da história de Cabo Verde, ou Neymar. O presidente recusou a escolha com a malandragem de quem entende dos dois lados da história.
– Você usou uma alternativa, “ou”. Eu digo: “e”. Prefiro Ryan e Neymar.
Palmeirense por causa do “artilheiro de Deus”
O presidente tem uma relação com o Brasil há mais de quarenta anos – ele garante que se sente em casa no país. Em 1982, ainda como um jovem estudante cabo-verdiano, desembarcou em São Paulo a tempo de ver a seleção brasileira de Zico, Sócrates e Falcão, aquela geração de ouro que encantou o mundo na Copa da Espanha. Formou-se em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
– Eu estudei em São Paulo, vivi lá quase 5 anos. Pude viver também todo aquele período de transição política.
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José Maria Neves, presidente de Cabo Verde, estudou no Brasil
Getty Images
No futebol, o coração do presidente se dividiu por clubes. Em São Paulo, virou palmeirense por causa de Baltazar, o centroavante apelidado de Artilheiro de Deus.
– Ele marcava muitos gols, era muito bom, e eu simpatizei com ele. Virei palmeirense por isso. É a única equipe que gosto que é verde, porque eu sou sempre vermelho – destacando o seu amor pelo Benfica, de Portugal, país que concentra a preferência dos cabo-verdianos que gostam de futebol.
No Rio, as asas bateram para o Flamengo, de Zico e Júnior. Neves recordou também com carinho jogadores como Sócrates e Casagrande no Corinthians, Éder no Atlético Mineiro e Falcão.
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“O Brasil é um Cabo Verde grande”
No meio de tantas declarações de carinho com o Brasil, Neves abriu espaço para uma única ressalva. Fez questão de emoldurá-la num quadro de elogios. Para ele, a cooperação brasileira é a melhor que Cabo Verde recebe, justamente por não carregar o peso do passado colonial.
– É uma cooperação mais genuína, mais desinteressada, porque não tem essa mentalidade colonialista. O Brasil, na verdade, podia dar muito mais aos países africanos de língua portuguesa e à África.
A ligação entre os dois países ultrapassa o afeto e traz um parentesco cultural. Neves destaca que “Cabo Verde é uma nação crioula e resulta desse encontro entre a África e a Europa.” E o fato de o Brasil ter vindo de encontros parecidos, a proximidade é tamanha.
Torcedores comemoram em Cabo Verde a classificação do país para a Copa de 2026
QUEILA FERNANDES / AFP
– Há um poeta cabo-verdiano, o nosso Manuel Bandeira, ele chama-se Jorge Barbosa. Ele compara Cabo Verde ao Brasil e diz: somos iguais, só que em Cabo Verde é em ponto pequeno.
A referência tem peso porque Jorge Barbosa foi um dos fundadores da Revista Claridade, nos anos 1930, fundamental para o avanço da literatura cabo-verdiana. No poema “Você, Brasil”, de 1956, ele declarou seu amor ao Brasil descrevendo a própria terra como ilhas perdidas no Atlântico diante da imensidão brasileira e chegando a interpelar, nos versos, o próprio Manuel Bandeira. Daí o apelido, lembra o presidente, que chama Cabo Verde de “um brasilinho” (brasilzinho).
– Eu disse ao presidente Lula: não é Cabo Verde que é um brasilinho. É o Brasil que é um Cabo Verde grande – recorda o presidente com bom humor.
E talvez seja essa a chave para entender o presidente que abre figurinhas e cita poetas: para José Maria Neves, ver Cabo Verde numa Copa do Mundo é também reencontrar o Brasil que o formou. Dois povos distintos e ao mesmo tempo semelhantes, cada um do seu jeito, mas que se entrelaçam e se reconhecem pela paixão ao futebol, pelo idioma, pela música e pelos costumes.
Presidente de Cabo Verde fala da relação com o Brasil
VOCÊ, BRASIL (poema do poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa, de 1956)
Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.
E o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
E o seu falar português que se parece com o nosso falar,
ambos cheios de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma da nossa gente humilde que reflete
A alma das sua gente simples,
Ambas cristãs e supersticiosas,
sortindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.
E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.
dos seus cateretês, das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta dança e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também…
As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade e igual emoção.
Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há no entanto uma diferença:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar…
Nós também temos a nossa cachaça,
O grog de cana que é bebida rija.
Temos também os nossos tocadores de violão
E sem eles não havia bailes de jeito.
Conhecem na perfeição todos os tons
e causam sucesso nas serenatas,
feitas de propósito para despertar as moças
que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.
Temos também o nosso café da ilha do Fogo
que é pena ser pouco,
mas — você não fica zangado —
é melhor do que o seu.
Eu gosto de Você, Brasil.
Você é parecido com a minha terra.
que é tudo e à grande
E tudo aqui é em ponto mais pequeno…
Eu desejava ir-lhe fazer uma visita
mas isso é coisa impossível.
Eu gostava de ver de perto as coisas
espantosas que todos me contam
de Você, de assistir aos sambas nos morros,
de esta cidadezinha do interior
que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,
de me deixar arrastar na Praça Onze
na terça-feira de Carnaval.
Eu gostava de ver de perto um luar no Sertão,
de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —
e rolar com ela um maxixe requebrado.
Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto
e você veria como é que eu sou bom camarada.
Havia então de botar uma fala ao poeta Manuel Bandeira
de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima
para ver como é que a poesia receitava
este meu fígado tropical bastante cansado.
Havia de falar como Você
Com um i no si — “si faz favor —
de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos
— “mi dá um cigarro!”. Mas tudo isso são coisas impossíveis,
— Você sabe? Impossíveis”. geRead More


