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Do quase adeus à idolatria: como Messi superou frustrações e deu a volta por cima na Argentina

Do quase adeus à idolatria: como Messi superou frustrações e deu a volta por cima na Argentina

Jogadores da Argentina usam camisas personalizadas para comemorar aniversário de Messi
Quando perdeu a final da Copa América de 2016 para o Chile, desperdiçou um pênalti e anunciou a aposentadoria da seleção argentina, Lionel Messi parecia destinado a carregar para sempre o peso de não repetir com a camisa do seu país o sucesso que havia alcançado no Barcelona. Dez anos depois, a história mudou completamente.
Campeão duas vezes da Copa América, campeão da Copa do Mundo e dono de uma série de recordes, o camisa 10 passou de alvo de críticas a personagem cada vez mais comparado a Diego Maradona na idolatria dos argentinos. Para o jornalista, escritor e historiador argentino Ezequiel Fernández Moores, essa transformação começou no Maracanã.
Messi beija a taça da Copa
REUTERS/Hannah Mckay//File Photo
Na avaliação de Moores, que cobriu o título argentino de 1986 e agora acompanha Messi, a maior mudança não aconteceu somente com a chegada de Scaloni ao comando da seleção, mas com a conquista da Copa América sobre o Brasil, no Rio de Janeiro, em 2021. O que para muitos era um título sem grande peso a nível mundial e histórico, para Messi foi uma virada de chave.
O título encerrou um jejum de 28 anos da Argentina e, principalmente, tirou das costas de Messi o peso de nunca ter conquistado um grande troféu pela seleção principal. Tudo mudou ali.
Messi com o troféu de artilheiro da Copa América de 2021, pela Argentina
Divulgação/Conmebol
– O que mudou essencialmente foi o título. Quando o Messi ganhou a Copa América, no Maracanã, foi como um alívio completo. Tenho a sensação de que ele chegou àquela Copa América de 2021 já mais leve em relação ao peso da responsabilidade. Isso certamente ajudou para que tudo o que ele sempre mostrava no Barcelona passasse a aparecer de forma mais natural na seleção. A partir dali, tudo ficou mais simples.
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Até 2016, a trajetória de Messi com a seleção argentina era marcada por decepções. Depois do ouro olímpico em 2008, o camisa 10 acumulou eliminações dolorosas: caiu nas quartas de final das Copas de 2006 e 2010, perdeu a final da Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha na prorrogação e foi vice da Copa América em 2015 e 2016, ambas diante do Chile, sendo a última decidida nos pênaltis.
Após desperdiçar sua cobrança na disputa em Nova Jersey, anunciou que estava deixando a seleção, afirmando que o ciclo havia terminado para ele. Naquele momento, apesar do sucesso absoluto pelo Barcelona, ainda convivia com o rótulo de não conseguir reproduzir com a camisa da Argentina o mesmo protagonismo que tinha nos clubes.
No vestiário pensei que acabou para mim a seleção, não é para mim. É o que sinto agora, é uma tristeza grande que volto a sentir. Foram quatro finais, infelizmente não consegui. Era o que mais desejava. É para o bem de todos. Por mim e por todos
Para o jornalista, a transformação de Messi após o título também aparece nos números. Antes de Scaloni, Messi disputou quatro Copas, entrou em campo 19 vezes e marcou apenas seis gols.
– Você me perguntou sobre o Scaloni e a influência dele. Há um dado que explica bastante isso. Antes do Scaloni, Messi disputou quatro Copas do Mundo, fez 19 jogos e marcou seis gols. Com o Scaloni, em duas Copas, são 10 jogos e 13 gols.
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Messi e Scaloni no desembarque da seleção da Argentina
Reuters
Moores acredita que a mudança foi muito mais psicológica do que técnica. Se em mundiais anteriores o argentino acumulava bolas na trave, grandes defesas dos goleiros e frustrações, hoje vive o oposto.
– Houve uma Copa, a de 2010, na África do Sul, em que o gol parecia negar o Messi. Agora ele entra em campo e faz gol. É como se tudo aquilo que antes era frustração, bola na trave, goleiro adversário fazendo uma grande partida ou qualquer outro obstáculo, tivesse desaparecido. Hoje ele chuta e a bola entra. Houve claramente uma libertação.
O papel de Scaloni
Embora reconheça a importância de Scaloni, Moores faz uma ressalva importante. Para ele, a seleção argentina sempre procurou jogar em função de Messi. O diferencial do atual treinador foi construir um time sólido, no qual o camisa 10 deixou de carregar sozinho todas as responsabilidades.
– Para mim, quem se libertou foi o Messi. O time sempre procurou jogar em função dele. O grande mérito do Scaloni foi montar um grupo.
Scaloni se emociona ao cumprimentar Messi após vitória da Argentina contra a Argélia
Tom Weller/picture alliance via Getty Images
Segundo o historiador, o ambiente criado pelo treinador permitiu que o craque encontrasse uma equipe organizada e comprometida coletivamente. Além disso, surgiu entre os jogadores um objetivo comum: conquistar títulos por Messi.
– Quando o Scaloni assumiu, ele montou um time, e o Messi passou a integrar uma equipe que já tinha um funcionamento coletivo. Isso certamente contribuiu para esse alívio. Além disso, havia um sentimento dentro do grupo de conquistar títulos por ele. Ganhar a Copa América e depois a Copa do Mundo era quase fazer justiça com um jogador que tinha dado tudo pela seleção e ainda não havia sido campeão.
Na visão de Moores, esse espírito permanece vivo na atual Copa do Mundo.
– Existe também a sensação de que esta pode ser a última Copa do Messi. Então o grupo parece pensar: ‘Vamos com ele até o fim’.
De contestado a comparado com Maradona
Messi com a taça da Copa
REUTERS/Hannah Mckay/File Photo
A sequência de títulos também mudou a forma como Messi passou a ser visto na Argentina. Se durante anos conviveu com comparações desfavoráveis em relação a Diego Maradona, hoje o debate ganhou outro tom.Para Moores, as comparações continuarão existindo, mas cada um construiu sua própria trajetória.
– A comparação com o Maradona é inevitável. Mas também há uma questão de maturação individual. Maradona conquistou a Copa aos 25 anos, no México. Messi precisou de mais dez anos e foi campeão aos 35, no Catar. Cada jogador tem seu próprio caminho, por mais que existam muitas semelhanças entre eles.
Jordânia x Argentina torcedores Messi e Maradona
Reuters
O jornalista acredita que o ciclo iniciado por Scaloni é o mais brilhante da história da seleção argentina justamente por reunir todos esses fatores: um Messi finalmente livre da pressão, um treinador discreto e um grupo disposto a colocar o coletivo acima do individual.
– Esse ciclo tem o Messi como líder e principal figura. Os planetas se alinharam. Também apareceu um treinador que não busca protagonismo. Esse perfil discreto e essa crença no coletivo ajudaram a fazer a grande estrela individual brilhar ainda mais.
Com Messi, a Argentina enfrenta Cabo Verde nesta sexta-feira, às 19h (de Brasília), em Miami, pela segunda fase da Copa do Mundo. geRead More