Lumumba Vea, torcedor estátua da RD Congo, se despede da Copa do Mundo: “Sonhamos juntos”
Torcedor-estátua do RD Congo diz que representa uma “figura emblemática”
Torcedor símbolo da RD Congo, Michel Kuka Mboladinga, o Lumumba Vea, se despediu da Copa do Mundo. Em um post nas redes sociais, o congolês, que acompanha o jogo parado como uma estátua em homenagem ao líder revolucionário Patrice Lumumba, fez um tributo emocionante à seleção congolesa, eliminada na segunda fase depois de uma derrota de virada diante da Inglaterra, na quarta-feira, em Atlanta.
– 52 anos de preparação, provações e repetidas falhas como professores. Nosso único objetivo era a classificação para esta prestigiosa competição. Mas, no fim, percebemos que o sonho tinha ido longe demais, a ponto de participar desta Copa do Mundo não ser mais nosso único sonho; ir longe era nossa fome. A RD Congo é uma terra abençoada! Sonhamos juntos. Acreditamos. É lindo partir com tanta sede de vitória, permanecer lá, lutando incansavelmente até o fim. Mais uma vez: BRAVO AOS NOSSOS! Este é apenas um revés temporário. Nos encontraremos novamente com ambições ainda maiores – afirmou Lumumba Vea.
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Há 13 anos, Michel Kuka Mboladinga decidiu se levantar em um jogo do AS Vita Club, time da Primeira Divisão da República Democrática do Congo, para prestar uma homenagem a Patrice Lumumba. De lá para cá, o torcedor congolês passou a se transformar em uma estátua humana durante as partidas do clube e levou o tributo para as arquibancadas da seleção nacional.
Inglaterra 2 x 1 RD do Congo | Melhores momentos | 2ª fase | Copa do Mundo
Patrice Lumumba foi um dos líderes da independência da República Democrática do Congo e considerado um dos principais símbolos da luta anticolonial na África. O torcedor virou reforço da seleção congolesa, que conseguiu classificação histórica à segunda fase da Copa do Mundo, quando vai enfrentar a Inglaterra, na quarta-feira, às 13h (de Brasília).
Lumumba Vea se despede da Copa do Mundo
Reprodução/Instagram
Foi somente em janeiro deste ano, durante a Copa Africana das Nações, que Mboladinga viralizou. Sua imagem imóvel e silenciosa nas arquibancadas cativou a mídia nacional e internacional. Outros torcedores abraçaram o ícone e o transformaram em uma das figuras mais memoráveis do torneio.
Michel Nkuka Mboladinga, torcedor da RD Congo, homenageia Patrice Lumumba
Carl Recine/Getty Images
Mboladinga é natural de Kinshasa, principal centro econômico, político e cultural da República Democrática do Congo. Na capital e maior cidade do país existem diversos imitadores de Lumumba. Michel recebeu o apelido “Lumumba Vea” por causa do seu clube do coração, o AS Vita Club.
Para conseguir ficar acima da multidão durante os jogos, Lumumba Vea mandou fabricar um pequeno banco de madeira poucas semanas antes da Copa Africana das Nações. O objeto se tornou parte inseparável da apresentação.
O segredo para ficar parado por 90 minutos está na concentração e na ajuda de outros torcedores, que o cercam durante os jogos para impedir que alguém tente tocá-lo ou atrapalhá-lo.
Desde a Copa Africana das Nações, a vida de Lumumba Vea virou do avesso. De volta a Kinshasa, o torcedor praticamente não conseguiu retomar a rotina. Viveu temporariamente em um hotel enquanto procurava uma casa em um condomínio fechado. Sua popularidade cresceu tanto que hoje é acompanhado por um segurança e tem três empresários cuidando de sua carreira.
Torcedor da RD Congo viralizou durante a Copa Africana das Nações, em janeiro de 2026
Chris Milosi/Anadolu via Getty Images
Antes da fama, ele era gerente de uma padaria. Também era convidado para casamentos e aniversários para interpretar Lumumba, chegando a ficar parado por até três horas, mas recebia muito pouco pelo trabalho.
Agora, segundo disse um de seus empresários ao jornal francês “L’Équipe”, Michel não consegue mais frequentar os bairros populares onde costumava sair, recebe ligações e pedidos constantemente e até sua família precisou se adaptar à nova rotina.
O motivo de não ter viralizado antes provavelmente está na falta de compreensão da sua performance. As arquibancadas de jogos de futebol geralmente são marcadas por dança, música e animação. A figura imóvel e silenciosa de Mboladinga muitas vezes pareceu estranha.
Não mais. Durante a Copa Africana das Nações, Michel foi convidado para o camarote do presidente da Confederação Africana de Futebol, Patrice Motsepe, que também recebeu o nome “Patrice” em homenagem a Lumumba.
A fama também fez o torcedor se tornar um símbolo da seleção nacional e ser convidado para fazer parte da delegação congolesa durante a Copa do Mundo.
Michel Kuka Mboladinga tem uma semelhança impressionante com Patrice Lumumba e destaca-se por seus ternos de cores vivas: azul, amarelo e vermelho.
Torcedor da República Democrática do Congo canta hino sozinho no meio da torcida colombiana
O torcedor teve problemas para chegar à Copa do Mundo, por causa da epidemia de Ebola na RD Congo. Ele foi submetido a uma quarentena de 21 dias, o que o fez perder a partida de estreia, o empate com Portugal, nos Estados Unidos.
Michel acompanhou a derrota para a Colômbia na segunda rodada, no México, mas também não assistiu à vitória sobre o Uzbequistão nem à derrota diante da Inglaterra, por não ter conseguido visto para entrar nos EUA.
Quem foi Patrice Lumumba
Patrice Lumumba foi o principal líder do movimento que levou a República Democrática do Congo à independência da Bélgica em 1960 e é considerado um herói nacional no país. Na época, RD Congo vivia um dos períodos coloniais mais violentos da história, com estimativas de 10 milhões de mortes entre o fim do século XIX e o início do século XX.
Patrice Lumumba, líder do movimento de independência da RD Congo e ícone político da África
Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images
Lumumba assumiu o cargo de primeiro-ministro do país logo após a independência, em junho de 1960, mas permaneceu no poder por apenas alguns meses. Em meio às tensões da Guerra Fria, passou a ser visto com desconfiança por potências ocidentais e acabou executado em 1961, aos 35 anos. A morte teve participação de autoridades da Bélgica e dos Estados Unidos, sob a alegação de que ele mantinha proximidade com a União Soviética.
Após o assassinato, seu corpo foi dissolvido em ácido para impedir que o túmulo se transformasse em local de peregrinação política. Mesmo assim, Lumumba tornou-se um mártir da República Democrática do Congo e símbolo da África. geRead More


