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A guerra atinge o esporte, que tem sido cada vez mais uma arma de guerra

A guerra atinge o esporte, que tem sido cada vez mais uma arma de guerra

Na terça-feira, 3, jogadores e demais funcionários do Challenger, um circuito internacional de tênis ligado à ATP, atravessavam a quadra apressadamente para se proteger de ataques de drone que atingiam a cidade de Fujairah (Fujeira), uma das principais dos Emirados Árabes Unidos (EAU).
O alvo era uma zona da indústria petroleira local, atacada pelo Irã como resposta aos bombardeios incessantes de Israel e dos Estados Unidos. Com o torneio suspenso, mais de 50 atletas de diversas nacionalidades ficaram dias presos no país, sem condições de voltar para casa.
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Em seguida, a Formula 1 anunciou que discutiria o cancelamento de duas corridas do calendário, os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita, programados entre dias 10 e 19 de abril. Outras diversas modalidades de automobilismo passaram a discutir o adiamento de eventos no Oriente Médio.
Em todos os casos, persiste a incerteza da duração do conflito, que apesar das promessas de curta duração por parte dos agressores, vem escalonando, se espalhando por toda região e dando indícios de que levará muitas semanas a mais do que o esperado.
No futebol, a “Finalíssima”, partida entre o campeão europeu e o campeão sul-americano, que reuniria Espanha e Argentina e estava programada para o dia 27 de março no Catar, agora está sem sede definida – de acordo com a UEFA.
Em paralelo, o clube inglês Everton cancelou uma curta temporada de treinamentos em Abu Dhabi, principal emirado do EAU, o que também deve ocorrer ao Manchester City, clube que literalmente pertence a um membro da família real de Abu Dhabi (EAU).
São todos casos de eventos esportivos que se realizam nesses países por questões categoricamente geopolíticas. Há algumas décadas, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Barhein se usufruem do esporte como instrumento de poder, buscando, através desses investimentos, a aproximação de importantes grupos políticos e grupos econômicos ocidentais.
Esses são apenas quatro dos 14 países da região que já estão envolvidos no conflito iniciado pelos Estados Unidos e por Israel, mas talvez sejam os principais casos quando assunto é esporte, poder e, agora e mais uma vez, guerra.
Em todo esse cenário, a Copa do Mundo, que se realizará nos Estados Unidos em menos de 100 dias, parece que não será impactada por tantos acontecimentos. Ao menos não no sentido diplomático.
A FIFA, através do seu presidente Gianni Infatino, tem se mostrado totalmente engajada no infame Board of Peace (Conselho da Paz), entidade criada por Donald Trump durante o Fórum Econômico de Davos como provocação aos países que não se alinham às suas ofensivas militares.
Não foram poucas as demonstrações de aliança entre Infantino e Trump nos últimos anos (como a entrega do primeiro Prêmio da Paz da FIFA), mas a mais significativa teria sido o anúncio de investimentos de 75 milhões de dólares que serão destinados à construção de “dezenas de campos de futebol, academias e estádios em Gaza”. Medida que basicamente dá ares de legitimidade os planos de ocupação definitiva da Palestina e a sua “reconstrução” mediada pelos Estados Unidos.
Nesta quinta, o perfil oficial da Casa Branca publicou uma imagem com os dizeres “Paz pela Força”, seguida da frase “O único caminho”, revelando o tom e o sentido da organização apoiada de forma enfática pela FIFA.
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No “Conselho da Paz” também estão, não à toa, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Barhein, além de uma série de outros países onde regimes antidemocráticos e entidades esportivas (inclusive olímpicas) são comandados pelas mesmas famílias.
Tudo isso acontece entre o encerramento da Olimpíadas e o início da Paralimpíadas de Inverno Milão-Cortina, que expõem outra grande confusão entre geopolítica e esporte na atualidade.
As Paralimpíadas contarão com a volta da Rússia, banida depois da invasão na Ucrânia em 2022, em medida que provocou a decisão de boicote da cerimônia de abertura por parte da própria Ucrânia, seguida por Alemanha, Estônia, Finlândia, Letônia, Lituânia, Países Baixos, Polônia e Tchéquia.
Reação que não encontra equivalência quando o assunto é a adoção das mesmas medidas sobre Israel, que há mais de um ano promove uma verdadeira destruição total de Gaza, e dos Estados Unidos, autores de diversas violações do direito internacional simultâneas e será principal sede da Copa do Mundo 2026, além de sede dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Sobre esses, não há indícios de revolta.
Hoje, dominado por interesses de países da região mais instável do mundo, e também pela maior potência bélica global, e contrariando os sentidos pacíficos de “comunhão entre os povos” – idealizados inocentemente para os grandes eventos esportivos internacionais ainda no século XIX -, o esporte retoma a sua “vocação” para servir a interesses políticos de grande escala.
Tem sido assim desde o início do século XX, mais especialmente quando as Olimpíadas de Berlim 1936, nas mãos do regime nazista, serviram como o modelo mais sofisticado de uso político do esporte já vistos até então. As versões contemporâneas dessa “tecnologia política” não são muito mais do que novas facetas mais cínicas do mesmo fenômeno.
Donald Trump dança no sorteio da Copa do Mundo
Mandel NGAN / POOL / AFP geRead More