Com Yamal, Espanha chega como favorita à Copa do Mundo
Cabral Neto analisa a seleção da Espanha para a Copa do Mundo 2026
A Espanha chega à Copa do Mundo de 2026 carregando uma sensação rara no futebol moderno: o início de uma nova era antes mesmo do auge técnico de seus principais jogadores.
Durante alguns anos, após o ciclo glorioso entre 2008 e 2012, a seleção parecia presa na nostalgia.
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Lamine Yamal – Turquia x Espanha – Eliminatórias Europeias Copa 2026
REUTERS
Não conseguia mais reproduzir o controle absoluto da era Xavi-Iniesta-Busquets, mas também não encontrava uma nova identidade competitiva de alto nível.
O treinador Luis de la Fuente mudou isso.
A atual seleção espanhola continua extremamente técnica, mas agora acelera e ataca com maior frequência.
Mistura posse de bola com agressividade ofensiva.
No centro dessa transformação está um garoto que simboliza perfeitamente o novo momento espanhol.
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Entre a escola e a genialidade
Durante a última Eurocopa, enquanto destruía defesas das maiores seleções do planeta, Lamine Yamal ainda conciliava o futebol com os estudos escolares.
A imagem do adolescente fazendo tarefas acadêmicas durante a concentração da Espanha virou quase uma metáfora sobre o tamanho daquele fenômeno.
Aos 16 anos, ele já era titular absoluto da seleção espanhola, campeão da Eurocopa 2024, com quatro assistências, um gol e atuações decisivas ao longo da campanha.
Yamal não é apenas talentoso.
Ele muda o jogo.
A maioria dos pontas da nova geração vive da aceleração. Yamal vive da leitura do jogo. Sua velocidade não está apenas nas pernas, mas na capacidade de interpretar o que acontecerá antes dos rivais.
Ele sabe como, quando e onde, de forma tão intuitiva que parece viver uns dois segundos no futuro.
Ele desacelera pra acelerar.
Manipula o posicionamento do marcador.
Recebe aberto, mas pensa como armador.
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Muda de direção no mano-a-mano e sai para qualquer um dos dois lados com extrema facilidade.
E raramente escolhe a pior solução.
Ele não parece um garoto sobrevivendo entre adultos.
Parece um craque plenamente consciente do que faz.
Enquanto os adultos tentam sobreviver a ele.
O maior adversário antes da Copa
A Espanha enfrenta um grave problema: a grande quantidade de lesões.
Começando pelo próprio Yamal, De la Fuente só deve contar com ele na segunda ou terceira rodada do Mundial.
Uma das razões para a Espanha abandonar um modelo excessivamente paciente e se tornar um “Tiki-Taka que morde”, foi o fato de unir dois pontas agressivos, extremamente habilidosos, dribladores e que atacam constantemente.
Na direita, essa é uma das funções de Yamal.
Do lado esquerdo foi Nico Williams quem entregou esse desempenho de destaque.
Fez uma Eurocopa 2024 de altíssimo nível e, desde então, teve dificuldade para manter a mesma sequência de atuações, muito por causa dos problemas físicos, decorrentes das várias lesões.
Quando está no auge da forma física, sua capacidade de atacar transforma a Espanha num time muito menos previsível do que em ciclos anteriores.
Rodri, o vencedor do prêmio Bola de Ouro da FIFA de 2024, passa pelo mesmo processo de tratamentos médicos recorrentes nos últimos dois anos.
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Saudável, ele funciona como sustentação tática, saída de bola, proteção defensiva e controle do setor.
Sua inteligência tática lhe deixa permanentemente em vantagem posicional em relação aos adversários.
Já foi mais dominante no meio-campo, mas é impossível desprezar seu impacto positivo no funcionamento da seleção espanhola.
O caso mais grave foi do jovem e talentosíssimo Gavi. O meia de 21 anos teve uma ruptura de ligamento cruzado do joelho no final de 2023 e passou a conviver com algumas lesões diferentes que se sucederam, desde então. Passou mais de 530 dias em tratamento médico nesse período. Conseguiu voltar aos gramados pelo Barcelona em março desse ano e foi o suficiente para convencer De la Fuente.
Sem contar com Fabián Ruiz, Merino e Pedri, que também se machucaram e precisaram se afastar por alguns meses ao longo do último ano, mas com menor gravidade.
Além de Fermin Lopez e Carvajal, que ficaram fora da convocação final.
Pedri comemora gol em Barcelona x Girona
Getty Images
Talento não falta
Apesar da grande dificuldade com excesso de lesões, há uma imensa quantidade de opções nessa geração espanhola.
Um dos maiores destaques é o jovem Pedri, o jogador que faz o time respirar.
É ele quem reduz o ritmo, quando percebe a necessidade, e oferece linhas de passe constantes.
Transforma o meio-campo espanhol em algo extremamente difícil de ser pressionado pelo time adversário.
Poucos meio-campistas no futebol conseguem receber pressionados e limpar a jogada tão rapidamente. Antes de receber, já mapeou seu pedacinho de terra e transformou em latifúndio.
Merino oferece algo diferente ao meio-campo espanhol. É um jogador moderno, com excelente leitura tática, dominante no jogo aéreo e toque refinado.
Fabian Ruiz completa o trio titular do meio-campo. É um jogador que combina força física, qualidade técnica e capacidade de controlar o ritmo das partidas.
Se Rodri não estiver em plena forma, Zubimendi pode ganhar a titularidade. O volante cresceu bastante nesse ciclo, principalmente nessa última temporada pelo Arsenal.
Melhorou seu tempo de reação, ganhou maior intensidade, tem muita força no duelo individual, desarmes precisos, bom passe e uma facilidade assustadora de girar o corpo sob pressão da marcação adversária.
Defensivamente, a equipe também parece mais madura.
A dupla de zaga oferece estabilidade: Laporte e Cubarsí.
Cubarsí é desses zagueiros que obrigam os atacantes adversários a pressionar alto, sem descanso. Sua qualidade nos passes, lançamentos e condução de bola rompe linhas e altera completamente a construção ofensiva da equipe.
E o time também entrega intensidade sem a bola, melhorando a marcação e dando maior segurança à defesa.
É o time perfeito? Não!
Em alguns momentos, depende demais dos jovens talentos.
Quando Pedri desacelera ou Yamal é encaixotado por marcações agressivas, por exemplo, a Espanha perde potência.
Além disso, em jogos mais físicos, apesar da evolução nesse aspecto, o time ainda pode sofrer.
Um outro ponto de atenção é o gol.
Os dois goleiros reservas oferecem maior segurança atualmente.
Raya atravessa excelente momento pelo Arsenal e surge como alternativa consistente.
E Joan Garcia vem de uma temporada melhor no Barcelona.
Mas, valorizando sua maior experiência na seleção espanhola, De la Fuente segue apostando em Unaí Simón, apesar de algumas atuações irregulares.
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Ahmad Mora – UEFA/UEFA via Getty Images
Futuro Garantido
A juventude à disposição da seleção chama a atenção.
Além de Pedri (23) e Yamal (18), há outros importantes jogadores numa faixa de idade baixa, como Gavi (22), Nico Williams (23) e o excelente zagueiro Cubarsí (19).
E essa profundidade do elenco é responsável por um leque incontável de possibilidades.
De la Fuente tem laterais com características diferentes e ainda pode usar zagueiros nessa função.
Tem meias de estilos distintos no banco e, qualquer alteração ao longo do jogo, pode servir para uma mudança complexa em sua estratégia.
Um bom exemplo é Dani Olmo, que pode entrar na ponta esquerda, oferecendo um estilo de jogo completamente diferente de Nico Williams e ainda pode atuar centralizado, na vaga de Fabian Ruiz e alterar a rotação do meio-campo.
No comando de ataque, com Oyarzabal, o titular, ele tem um centroavante mais técnico e armador; com Ferran, tem um 9 de atacar espaço; enquanto que Borja Iglesias é um habitante da grande área.
E, vale destacar, o treinador usa e abusa dessa complexidade do elenco ao longo das partidas.
Favorita
A Espanha carrega o peso do favoritismo ao título, ao lado da França.
Tem menos opções de alto nível no banco de reservas que os franceses, mas joga um futebol mais agressivo e que causa maior desconforto a qualquer adversário.
Talvez esse seja o retrato perfeito dessa nova Espanha.
Uma seleção jovem, ousada, tecnicamente brilhante e destemida.
Um time que ainda parece em construção, mas que já compete com cara de vencedor.
Durante anos, a Espanha procurou reencontrar o passado. O que descobriu foi algo ainda mais valioso: o futuro. geRead More


