Pais sobreviventes de genocídio e recusa aos EUA: conheça o meia que levou a Bósnia à Copa
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Se o plano desse certo, teriam sido executados muito além dos oito mil meninos e homens bósnios-muçulmanos que estavam em Srebrenica em julho de 1995. Se o plano desse certo, os pais da geração que está em campo representando o país pela segunda vez em uma Copa do Mundo não conheceriam a adolescência. Se o plano desse certo, Elmir Bajraktarevic, pai de Esmir Bajraktarevic, autor do pênalti que classificou a Bósnia contra a Itália na partida decisiva das Eliminatórias, estaria em uma vala comum.
Mas não deu, apesar de todos os sobreviventes terem perdido alguém. Esmir Bajraktarevic nasceu 10 anos depois, em Appleton, Wisconsin, nos Estados Unidos, e não precisou percorrer quilômetros na mata do país para fugir do massacre orquestrado por forças sérvias. Ele sabe que um avô, dois tios e diversos parentes não tiveram a mesma sorte.
O Massacre de Srebrenica fez parte da Guerra da Bósnia, que matou cerca de 100 mil pessoas e deslocou dois milhões — quase metade da população da época. O conflito de 1992 a 1995 era entre bósnios-muçulmanos (44% da população do país), bósnios-sérvios-ortodoxos (32%) e bósnios-croatas-católicos (17%), sendo os sérvios os principais autores das agressões.
Os pais de Bajraktarevic conseguiram fugir da guerra e do massacre. Primeiro, para a Suíça e, em 2001, para os Estados Unidos, por meio de um programa do governo que recebia refugiados. Foi lá, em 2005, que o camisa 20 da Bósnia nasceu.
Amante de futebol desde pequeno por influência do pai e dos irmãos, o meia tem vídeo quando criança marcando um gol com a camisa de Dzeko, ídolo e, agora, colega de seleção. Mas a decisão de ser bósnio não foi simples.
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As origens no bairro
Cria de Appleton, cidade de Wisconsin de cerca de 75 mil pessoas (quase o mesmo tamanho de Ouro Preto), não era fácil para o menino americano de ascedência bósnia chegar ao futebol profissional. Os times da MLS mais próximos de casa eram o Minnesota United e o Chicago Fire, que ficavam a três horas de carro. Esmir chegou a ir a Chicago várias vezes jogar como convidado no time de base, mas que isso fizesse parte do dia a dia era inviável.
Até que enfrentou Liam Wascou em um dos muitos jogos de ligas locais que participou. O pai de Liam chegou a jogar futebol na Universidade Marquette e teve a experiência de pessoas com muito talento não conseguirem seguir no futebol por dificuldades financeiras. Ele não queria isso para o menino que acabou virando o melhor amigo do filho, cujos pais se alternavam nos turnos de 12 horas em que um ficava com as crianças (Esmir tem um irmão e uma irmã) enquanto o outro trabalhava.
— Ele é um cara incrível. Nós o consideramos como um dos nossos filhos. Não achei que fosse diferente do que faríamos pelos nossos próprios filhos. Se fôssemos comprar sapatos para os nossos filhos, compraríamos sapatos para o Esmir. Consideramos os Bajraktarevic como nossa família e eles nos consideram da mesma forma. Eles são pessoas maravilhosas — disse Kevin, pai de Liam.
— Sinceramente, ainda não sei por que fizeram isso. É uma verdadeira bênção tê-los na minha vida. Até hoje, converso com eles todos os dias. Liam continua sendo meu melhor amigo. Ainda falo com toda a família. Eles são quase como uma segunda família para mim. Sou muito grato por tudo que me deram — contou o jogador. Ambos os relatos foram feitos ao site americano “The Blazing Musquet”, especializado em cobrir o futebol da região da Nova Inglaterra (nordeste dos Estados Unidos).
Foi justamente lá onde Esmir Bajraktarevic surgiu para o futebol. As viagens com Liam e os pais para Milwaukee três vezes por semana resultaram em um período de testes com o New England Revolutions. Aos 16 anos ele deixou a casa dos pais e se tornou o primeiro jogador de fora da região a morar em uma das residências estudantis do clube. Com 17, se tornou jogador da base e cinco meses depois do aniversário, estreou na MLS.
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Bajraktarevic cumprimenta Dzeko na estreia pela Bósnia
Reprodução/Instagram
Ascensão e recusa à seleção dos Estados Unidos
O garoto começou a ter mais espaço na temporada seguinte, em 2023, quando marcou o primeiro gol pela equipe em 16 jogos. Em 2024, assumiu a titularidade no New England, marcou quatro gols e deu quatro assistências em 37 jogos e recebeu a primeira convocação para a seleção dos Estados Unidos.
Esmir já havia sido chamado para a base americana, mas a primeira vez pela equipe principal foi em um amistoso contra a Eslovênia. Bajraktarevic sempre mostrou carinho pela terra onde nasceu e que recebeu os pais refugiados e, inicialmente, aceitou o convite para defender o país.
— Nasci aqui, cresci aqui. O inglês provavelmente é minha primeira língua. Estou cercada por americanos e todos os meus amigos são americanos, então obviamente é ótimo crescer aqui e sou muito grato por isso. Obviamente, minha família construiu uma nova vida aqui e tudo mais, então tenho muito orgulho de ser americano, assim como bósnio — mas também não negava a identidade bósnia, já que estava prestes a receber o passaporte do país, tanto que dava indicativos da escolha que faria.
— Ser bósnio é obviamente uma parte enorme de quem eu sou. Meu nome é Esmir Bajraktarevic, então é isso que eu sou. Quando as pessoas me perguntam de onde eu sou, eu digo, obviamente, que sou bósnio. Então, isso é algo que faz parte de mim. Eu cresci em uma família bósnia. Falo bósnio todos os dias com meus pais. É uma parte enorme de quem eu sou. É meu sangue, são minhas raízes. Então, tenho muito orgulho de ser de lá.
Bósnia como seleção e PSV como time
Esmir Bajraktarevic converteu o pênalti que classificou a Bósnia para a Copa do Mundo
REUTERS/Matteo Ciambelli/File Photo
O destaque no New England Revolutions fez o canhoto chamar a atenção do PSV, tradicional time da Holanda. Ao mesmo tempo, a Bósnia o convidava para jogar pelos “Dragões”, como é conhecida a seleção. Se atuou em janeiro pela seleção principal americana, em setembro ele vestiu a camisa do país de seus antepassados e foi uma das boas notícias na estreia, já que deu uma assistência para Dzeko no primeiro toque na bola, apesar da derrota para a Holanda por 5 a 2, na Liga das Nações.
Na primeira temporada pelo PSV, jogou apenas cinco vezes no time principal e nove no time B, onde marcou um gol, mas terminou com o título holandês. Em 2025/2026, deslanchou de vez. Pelo clube, foram sete gols e quatro assistências nos 36 jogos que resultaram no bicampeonato nacional. Na seleção, marcou pela primeira vez ao fazer o gol da virada no confronto direto com a Romênia, na penúltima rodada das Eliminatórias.
Depois disso, só balançou as redes mais uma vez: virando o rosto na cobrança de pênalti que resultou na construção deste perfil. Segundos antes de isso acontecer, um membro da comissão técnica rezava com o Santo Rosário dos ortodoxos, um jogador cristão fazia o sinal da cruz e os muçulmanos rezavam ajoelhados. Juntos, como antes da guerra.
No detalhe, o bósnio Bajraktarevic vira a cara ao cobrar o pênalti decisivo
Agenda da Bósnia na Copa do Mundo
1ª rodada: Canadá x Bósnia, 12 de junho, às 16h, no Toronto Field
2ª rodada: Suíça x Bósnia, 18 de junho, às 16h, em Los Angeles
3ª rodada: Bósnia x Catar, 24 de junho, às 16h, no Seattle Field geRead More


