Marrocos, rival da estreia do Brasil na Copa, guarda conexão profunda com pequena cidade do Amapá
Mazagão Velhos nos dias atuais
O Brasil estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos no dia 13 de junho, e os dois países têm uma conexão que vai além do futebol: a Vila de Mazagão Velho, no município de Mazagão, Região Metropolitana de Macapá, no Amapá.
✅ Clique aqui para seguir o canal do ge AP no WhatsApp
Marrocos foi colonizado por Portugal e lá existia uma cidade chamada Mazagão, desativada e transferida para a Amazônia, onde nasceu a Nova Mazagão.
Em 1771, cerca de 163 a 410 famílias foram trazidas após uma longa jornada entre o Norte da África e o Brasil. Segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado, mais de 1.600 habitantes foram forçados a cruzar o Atlântico para povoar e proteger a fronteira no Amapá.
Entre eles, estavam os antepassados de Antônio José Pinto, narrador da batalha da Festa de São Tiago – que relembra a guerra que originou a vinda dos marroquinos para Mazagão – há mais de 30 anos.
Ela vinha através de uma preocupação do rei de Portugal, devido às batalhas entre mouros e cristãos… chegamos até Belém. De Belém, chegamos até aqui hoje, onde é o rio Mutuacá, e até hoje estamos aqui”.
Antônio José Pinto, professor e morador de Mazagão Velho
Carlos Cardozo/Rede Amazônica
A migração aconteceu por causa da guerra religiosa travada por Portugal em solo árabe. Sem recursos para manter o conflito, a Coroa transferiu os moradores da Vila de Mazagão para o Brasil, dando origem ao vilarejo amapaense.
Um morador resume o sentimento:
“Nós somos descendentes marroquinas, mas não somos portugueses… nós temos esse lado do nosso coração marroquino, embora que a gente se adaptou no Brasil, mas o nosso lado marroquino é muito grande ainda.”
Historiador fala da ligação entre Mazagão Velho e Marrocos
Mazagão Velho hoje
Bandeiras hasteadas em frente a Igreja Nossa Senhora de Assunção, Mazagão Velho
Francisco Pinheiro/ge
Atualmente, Mazagão Velho é um vilarejo com cerca de 8 mil habitantes, segundo o censo do IBGE de 2022. A comunidade mantém viva a tradição e a memória histórica da migração marroquina para a Amazônia. Nas ruas, é comum ver hasteadas as bandeiras do Brasil, do Amapá, do município de Mazagão e também de Portugal e Marrocos, simbolizando a ligação cultural entre os povos.
Entre os monumentos mais marcantes está a Igreja Nossa Senhora da Assunção, iniciada em 1777 e a construção durou 13 anos. A arquitetura seguia o estilo colonial, com revestimento feito de madeira, pedras, cal, barro e óleo de baleia, além de piso em blocos de cerâmica.
Hoje, restam apenas ruínas. Não há registros precisos sobre o ano em que a igreja ruiu nem sobre os motivos que impediram sua restauração. Acredita-se que o número reduzido de habitantes, após um surto de cólera que vitimou grande parte da população, tenha dificultado a reconstrução.
Ruínas da Igreja Nossa Senhora da Assunção
Francisco Pinheiro/ge
Mazagão Velho também preserva costumes e tradições culturais herdadas dos antepassados. Festas religiosas, como a Festa de São Tiago, continuam sendo o ponto alto da vida comunitária, reunindo moradores e visitantes em celebrações que misturam fé, teatro e música.
Mazagão africana
A Mazagão africana foi uma importante fortificação portuguesa no litoral do Marrocos (Norte da África), fundada no século XV. O lugar originalmente ficava na costa atlântica marroquina, a 90 km a sudoeste de Casablanca. Servia de base militar e entreposto comercial durante a expansão ultramarina portuguesa.
A área, abandonada por Portugal devido a batalhas constantes com povos mouros da região, corresponde hoje à cidade de El Jadida, que é considerada Patrimônio Mundial da UNESCO.
E teve um morador da versão brasileira que teve a oportunidade de conhecer a original africana. Josué Videira conseguiu conhecer a Mazagão marroquina em 2018.
Foi uma emoção muito forte. Você sair de uma Mazagão no Amapá e chegar em outra Mazagão em Marrocos… sem palavras para dizer o quanto isso é importante e fundamental para sintetizar essa história”
Josué destacou que ficou impressionado com os dois lugares e as suas semelhanças, que resistem à distância e ao tempo.
São muito semelhantes, principalmente às casas que ainda existem lá, que as casas eram assim aqui também, alguns instrumentos de percussão, muita coisa lá semelhante às que tem aqui em Mazagão Velho”
A música e seus instrumentos foram mais um aspecto marcante nesse incrível sentimento de identidade.
– Então assim, eu cheguei lá num momento, num espaço onde tinha uma caixa de marabaixo, onde tinha os instrumentos assim, e eu pude pegar nisso e pensar “poxa, mas eu faço uma parecida com essa”. Então a gente tem laços, não tem como não ter esses laços ali, e ali eles continuam.
Josué Videira, morador de Mazagão Velho
Carlos Cardozo/Rede Amazônica
Festa de São Tiago
Nessa região é encenado um dos maiores espetáculos de teatro a céu aberto do país. A guerra foi romantizada na Festa de São Tiago, e mostra que Portugal teria vencido essa batalha contra Marrocos.
A encenação inicia com o Baile das Máscaras, que é a comemoração dos mouros que pensaram ter matado os portugueses após terem lhe oferecido comida envenenada como suposto sinal de trégua.
Ao desconfiarem das intenções, os cristãos foram mascarados até o baile levando a comida e distribuindo para os animais dos mouros, que no dia seguinte amanheceram mortos. Alguns soldados também morreram, entre eles o chefe dos mouros, o Rei Caldeira.
Encenação da batalha entre mouros e cristãos na Vila de Mazagão Velho – Festa de São Tiago em 2022
Marcelo Loureiro/GEA/Divulgação
A partir daí iniciou a batalha, mas antes os mouros mandaram um espião ao acampamento dos cristãos, o “bobo velho”, que ao se aproximar foi apedrejado. Na encenação em Mazagão, a passagem é marcada pelo soldado montado em um cavalo, e ao invés de pedras, a comunidade atira bagaços de laranja no bobo.
O momento é um dos mais celebrados e reúne moradores da vila e visitantes. A partir daí inicia-se o confronto marcado pela morte do soldado Atalaia, um cristão mandado ao acampamento mouro que após roubar a bandeira inimiga é capturado, morto e tem a cabeça arrancada.
No teatro à céu aberto, parte do exército mouro é vestido com máscaras visando assustar os cavalos inimigos. As batalhas seguintes são marcadas pela fé até a vitória dos cristãos. O ato final é o vominê, a dança da vitória dos soldados cristãos, entre eles o guerreiro Tiago, que se uniu aos devotos de Cristo nas lutas.
Torcida dividida
Quando o assunto é a Copa do Mundo e o jogo inicial das duas seleções, a ligação histórica divide os corações:
– A gente não gostaria que eles se enfrentassem nessa fase… vamos torcer um pouco para Marrocos e um pouco para o Brasil.”, disse Antônio José, alinhado a Josué, que não disfarça o desejo de ver a igualdade no marcador:
– Eu vou torcer para ficar no empate, eu não quero sofrer por nenhum… cada gol vai ter torcida, com certeza.
Para ler mais notícias do estado, acesse ge.globo/ap geRead More


