História da primeira torcida organizada feminina vira livro feito por alunos de jornalismo
Irmãs Ramalho falam sobre amor, pioneirismo e dificuldades na torcida pelo São Bento
No Brasil dos anos 1970, “lugar de mulher” não era no estádio de futebol. Não para cinco irmãs de Sorocaba, que ousaram desafiar o machismo vigente e criar a primeira torcida organizada do São Bento. Quase 50 anos depois, em um trabalho de conclusão de curso de dois alunos de jornalismo de Sorocaba, a história de Zezé, Paula, Rosa, Marina e Maria Helena Ramalho agora virou livro: “Irmãs Ramalho: futebol no DNA”.
Em pouco menos de um ano, Fabrício Rocha e Maria Eduarda Baddini descobriram grandes histórias a respeito das Irmãs Ramalho, e que vão até mesmo além do São Bento. Como a participação delas na “Invasão corintiana” de 1976, quando a torcida do Timão tomou conta do Maracanã para a semifinal do Campeonato Brasileiro contra o Fluminense.
Fabrício, Marina, Maria Helena, Rosa e Maria Eduarda
Fabrício Rocha / Arquivo pessoal
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– Após as primeiras conversas, pensamos que queríamos tratar de algo local, da nossa Sorocaba. Chegamos no tópico de esportes e até cogitamos o vôlei e o basquete como ponto de partida. Foi aí que fomos apresentados à história das Irmãs Ramalho, a primeira torcida organizada do São Bento e a primeira criada por mulheres no Brasil. Ali, sabíamos que tínhamos uma história muito especial – contam.
– Elas decidiram representar o São Bento e abrir uma faixa falando dele no meio de uma multidão de mais de 100 mil pessoas. Estava escrito algo como: “o Esporte Clube São Bento apoia o Timão”. Elas mesmo falam que, em seguida, ouviram o maior coro da história que já gritou o nome do nosso time aqui de Sorocaba – disse Fabrício.
Maria Helena, Rosa e Marina contam histórias de quase 50 anos de futebol
Fabrício Rocha / Arquivo pessoal
Outra história curiosa vivida pelas Ramalho e contada por elas aos estudantes trata dos acontecimentos após a morte de José Barbosa Beraldo, presidente do Azulão que foi assassinado em 1975 e gerou uma suposta “maldição” para o time em campo.
– Depois de sua morte, o clube entrou em uma sequência de mais de 20 derrotas, o que fez com que Rogério de Moraes, então editor de esportes do Jornal Cruzeiro do Sul, acreditasse que os dois fatos estavam relacionados. Para ele, as partidas perdidas eram causadas pelo fato de o Beraldo ser o único presidente que não tinha uma foto na galeria dos ex-presidentes do São Bento. Ele deu uma foto, em papel jornal mesmo, para Maria Helena, que mandou enquadrar, entrou escondida na galeria e pendurou a foto. Não é preciso dizer que, no jogo seguinte, o São Bento ganhou o jogo. Segundo as irmãs, até hoje, quase ninguém sabe como a foto foi parar lá – dizem os autores.
A pesquisa encontrou até mesmo uma foto “proibida” das torcedoras, em um jogo contra o XV de Piracicaba que não deveria ter torcida, por conta de brigas recentes que envolviam até mesmo os dois dirigentes, Alfredo Metidieri e Romeu Ítalo Rípoli, adversários declarados na disputa pelos interesses do futebol do interior paulista.
– Achamos um flagra delas que apareceu na Placar. Rosa e Maria Helena conseguiram entrar no estádio e foram pegas pelo fotógrafo da revista, indo parar na publicação de maio de 1977. Elas explicaram para a gente que por muito tempo acreditavam que o registro estava perdido para sempre e que nunca mais veriam. Elas ficaram muito felizes quando conseguimos a foto – revelam.
Legado
Com o trabalho, Fabrício e Duda esperam tornar eterno e acessível o legado da torcida Tira Prosa e das cinco mulheres para o futebol.
– A história da Tira Prosa e das Irmãs Ramalho foi guardada, mesmo que involuntariamente, como um segredo no interior de São Paulo. Como as apaixonadas pelo São Bento que são, elas sempre priorizaram o clube e nunca tiveram pretensões de ganhar mais destaque do que ele. Contudo, espero que esse livro seja uma oportunidade para que possamos apreciar um pouco a história dessas cinco irmãs que são tão importantes para a história do futebol brasileiro e abriram as portas para muitas mulheres nas arquibancadas, mesmo que a maioria das pessoas não saiba disso – torcem os estudantes.
“Irmãs Ramalho: futebol no DNA”: TCC de jornalismo de Fabrício e Duda
Fabrício Rocha / Arquivo pessoal
O livro também realizou um sonho do professor de jornalismo e orientador do projeto, Rodrigo Gabrioti. Ele sempre desejou que a história das Irmãs Ramalho fosse contada.
– Este TCC é um presente pra Sorocaba, para as Irmãs Ramalho e também para mim que sempre quis que a história delas fosse contada e registrada para sempre. Depois de tanto tempo, conseguimos com o Fabrício e a Maria Eduarda. Eles abraçaram a história, fizeram com dedicação e se aprofundaram nas histórias de vida e de amor ao São Bento por parte delas que, sem dúvida alguma, abriram caminhos para as mulheres ganharem espaço no esporte. Torço para que logo o TCC vire um livro a ser publicado. É uma história de sucesso e muito bem contada. Como orientador e fã das irmãs, fico feliz em contribuir com toda construção desse momento – finalizou Gabrioti. geRead More


