Na Bancada da Copa do Caos – Edição 003
O “caos” tem ficado por conta dos jogos mesmo: reviravoltas, empates tardios, artilheiros inspirados e um poquinho de paçocada dos goleiros também.
Com uma média de 3,13 gols por partida, essa é a melhor primeira rodada de Copa do Mundo em quantidade de gols desde 1978 – que teve a mesma média, em uma época em que gols eram mais comuns.
Dentro da fase mais recente, a Copa atual superou a agitada Copa de 2014 (3,06 gols por partida), considerada uma das melhores das últimas décadas.
Alguns críticos jogarão a conta na expansão da Copa para 48 seleções, uma mudança que permitiu que equipes menos tradicionais acessassem o torneio. De fato, tivemos as goleadas de Alemanha 7 x 1 Curaçao, além de Suécia 5 x 1 Tunísia (que na verdade está na sua 7ª participação).
Acontece que, em 2014, os números foram majorados por duas goleadas que ninguém apontou nos bolões de família ou da firma: Holanda 5 x 1 Espanha e Alemanha 4 x 0 Portugal. O pau que dá em Chico dá em Francisco.
Os números de 2026 estão altos especialmente por causa de jogos equilibrados: Holanda 2 x 2 Japão; Irã 2 x 2 Nova Zelândia; Inglaterra 4 x 2 Croácia. Houve apenas um jogo sem gols, entre Espanha e Cabo Verde (que foi uma goleada, no fim das contas). Apenas 8 seleções não fizeram gols na estreia.
O fato é que o baixo-astral que rondou a Copa do Mundo antes de sua abertura foi claramente revertido com… o futebol. Multiplicam-se as imagens de confraternizações bem humoradas, especialmente nos jogos no México. Mas, mesmo nos Estados Unidos, onde pareceu que a Copa “não pegaria”, a festa nas ruas está rolando e os estádios estão repletos de torcedores, fantasias, cores e alegria.
Sobre a edição passada, onde falamos sobre as origens dos jogadores, uma sugestão que escapou. O jornalista Leandro Stein, que criou o Almanaque da Copa 2026, elaborou um mapa interativo com os locais de nascimento de TODOS os 1.248 jogadores convocados. Uma obra prima para os apaixonados pelo tema, da qual aproveito para dar um spoiler: um print de Paris.
Na Bancada
O mercado de ingressos – A primeira rodada terminou com os estádios lotados. O público da Copa contradisse muito da expectativa ruim deixada pela questão do preço dos ingressos (como falamos na edição passada), mas ainda será preciso aguardar alguma investigação mais profunda sobre o tema – se for possível, diante da opacidade do sistema da FIFA.
Muitos relatos davam conta da queda abrupta dos preços dos ingressos disponíveis por revenda de diversas partidas, porque o “preço dinâmico” também pode apontar pra baixo quando a demanda é baixa. De acordo com o perfil @florianederer, no antigo twitter, ingressos para Cabo Verde e Arábia Saudita estavam sendo revendidos por menos de 7 dólares no dia 21 de maio, quando iniciaram por 138 dólares.
Esse “fenômeno” pode ter ajudado a reverter o problema, embora também possa indicar que as próximas rodadas seguirão “sob risco” de esvaziamento. O próprio perfil supracitado, controlado por um economista, anotou que os preços dos ingressos estão parecendo leilões comuns. As pessoas observam as flutuações e buscam adquirir no momento preciso, causando novas altas.
A questão é que, queira ou não, os Estados Unidos são um país com população média com alto poder aquisitivo e, mais do que isso, há uma fração imensa relacionada a alguma comunidade diaspórica que está representada na Copa do Mundo. Essas pessoas estão tendo a oportunidade de “voltar para casa” por 4 horas, torcendo pela sua “seleção nacional”. Certos valores compensam.
Por outro lado, estamos atravessando uma era em que as redes sociais impulsionam desejos de consumo por coisas que minutos antes eram desconhecidas. Se lá atrás parecia que a Copa não ia pegar, quando a bola começa a rolar, ela se tornou uma realidade concreta para o norte-americano mais desinteressado no “soccer”.
O que também está em jogo: não convém à FIFA que os preços de revenda estejam muito baixos, porque o público-alvo dela, no fim das contas, é o insano mercado especulativo de “cambistas oficiais”. É preciso que a experiência nos Estados Unidos, onde a prática é muito comum, seja mais do que “bem-sucedida”: ela precisa ser consolidada no universo do futebol.
Em tempos de daytraders e mercado de previsões, a FIFA mira a multidão de anônimos que vive de especular sobre valores (com uma pontinha de adicção em apostas, por que não) e que precisa sair vencedora nessa primeira viagem, para que retornem com tudo na Copa do Mundo de Clubes 2029 e na Copa do Mundo de 2030.
São eles que esgotarão os ingressos em tempo recorde na primeira rodada e ficarão com os riscos de avaliação da demanda. A FIFA fica livre de preocupações, porque as entradas já têm donos, e daí passa a lucrar ainda mais com as taxas sobre vendas e compras.
Sobre arquibancada em si, o destaque dos jogos dos últimos dias ficou, sem dúvida, pela invasão colombiana no estádio Azteca. Na vitória de 3 a 1 da Colômbia sobre o Uzbequistão, um mar amarelo e uma arrepiante execução de hino entraram no ranking das belas imagens da Copa.
Fora dos estádios, na verdade bem longe de casa, torcedores da seleção de RD Congo também marcaram o fim da primeira rodada: no campo de refugiados de Musasa, no Burundi, uma linda imagem de euforia coletiva se deu após o gol de Yoane Wissa, que empatou a partida contra Portugal. Wissa nasceu na França, filho de imigrantes congoleses.
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A Copa Além da Copa
O Haiti aqui – O Brasil vai entrar em campo para encarar o Haiti pela segunda rodada, um país que não jogava uma Copa desde 1974. Além de ter uma relação estreita (e controversa) com a gente, o Haiti também esteve envolvido numa das grandes polêmicas políticas desta Copa do Mundo de 2026.
Política? Depende da perspectiva. Os companheiros do Copa Além da Copa trazem uma leitura sobre o caso do veto ao símbolo presente no uniforme da seleção do Haiti para a Copa.
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A posição de “neutralidade política” das entidades esportivas é sempre muito relativa e contraditória. É certo que em alguns contextos há a necessidade de controlar os ímpetos bélicos e sectários dos tempos atuais, mas não era esse o caso do Haiti.
Em 2020, a UEFA vetou a camisa da Ucrânia que trazia os dizeres “Glória à Ucrânia” e “Glória aos nossos heróis”, além de um mapa do país incluindo a região da Criméia, anexada pela Rússia em 2014. O último slogan foi removido, por ser considerado “político e militarista”, se combinado com o primeiro. O mapa permaneceu.
Em 2024, a CAF permitiu que o clube RS Berkane jogasse a sua competição continental com um mapa “expandido” de Marrocos, que incluia a região do Saara Ocidental. Considerando uma provocação à Argélia, o clube argelino USM Alger levou o caso ao CAS e garantiu o banimento do uniforme.
Por sua vez, o veto ao símbolo na camisa do Haiti soa arbitrário e exagerado. Absolutamente toda bandeira é baseada em simbologias que remetem a algum acontecimento histórico central na formação nacional.
Áustria e Dinamarca remetem às Cruzadas; a França aos lemas “liberdade, igualdade e fraternidade”; Angola, Argentina, Colômbia, RD Congo, Gana e tantos outros remetem aos heróis da independência; diversos países muçulmanos usam a lua crescente e a estrela.
No caso do Haiti não seria diferente, as cores de bandeira nacional trazem significados ligados à luta pela independência. A Batalha de Vertières, de 18 de novembro de 1803, representa um marco na independência do país caribenho, consagrada menos de dois meses depois.
A dúvida que fica é quanto a quem exatamente ficaria ofendido com a memória de um fato histórico de mais de 200 anos, que está na base da formação do país.
Napoleão Bonaparte, derrotado à época? O Rei Carlos X, que aceitou a independência 20 anos depois? A Quinta República francesa, fundada em 1958?
Há pouco, a revista The Economist fez um levantamento sobre os hinos dos países participantes da Copa e constatou que apenas 8 não se referem a “guerras, soldados, armas, batalhas ou sacrifícios patrióticos”. Os hinos, por razões óbvias, não são vetados, alterados ou censurados. Mas as simbologias são equivalentes (e meramente gravadas na História).
Ludopédio – para ler o jogo
Mudando um pouco o formato das primeiras edições, dessa vez os companheiros do Ludopédio recomendam um artigo baseado em uma pesquisa acadêmica e um filme. No primeiro, uma análise profunda sobre o uso da “pausa para hidratação” e depois, em sintonia com o tema anterior, um documentário sobre a visita da seleção brasileira ao Haiti em 2004. Ótimas pedidas!
Artigo: A FIFA poderia fazer mais para proteger os jogadores do calor na Copa do Mundo?
Toby Mündel e Samuel Penna Wanner – The Conversation(2026)
Já na primeira rodada, a pausa para hidratação virou uma das marcas desta Copa. Usando os dados das 57 partidas da Copa do Mundo de Clubes de 2025, disputadas nos mesmos estádios e na mesma época do ano que a Copa, pesquisadores da Universidade Brock, no Canadá, mostram que o calor extremo não é apenas um incômodo. As altas temperaturas reduzem a distância percorrida pelos jogadores, diminuem a velocidade das arrancadas e forçam as equipes a abandonar o jogo de transições rápidas em favor da posse de bola mais cadenciada. Por outro lado, a FIFA tem usado a pausa para hidratação como uma ótima oportunidade para comercializar o espaço nas transmissões. A pausa para hidratação já se tornou um realidade, alterando a dinâmica do jogo, a forma de assistir os jogos e a economia do futebol. Sugerir esta leitura durante a Copa é um convite a refletir até que ponto a FIFA está preocupada em preservar a saúde dos jogadores, ou mais interessada em explorar economicamente toda e qualquer oportunidade.
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Filme: O dia em que o Brasil esteve aqui
Caíto Ortiz, João Dornelas – Prodigo Films (2005)
Em 2004, o Haiti enfrentava uma profunda crise política e social. O Brasil, que buscava reconhecimento internacional e um lugar no Conselho de Segurança da ONU, enviou ajuda humanitária, cedeu soldados e iniciou uma missão de paz. E foi nessa aproximação entre Brasil e Haiti que o futebol – ou melhor, a Seleção Brasileira – entrou em ação. Foi assim que nasceu o “Jogo da Paz”. A equipe brasileira, que havia acabado de ser campeã mundial em 2002, viajou a Porto Príncipe, capital do Haiti, para realizar um amistoso entre as duas seleções. O documentário O dia em que o Brasil esteve aqui, de Caíto Ortiz e João Dornelas, registra aquele 18 de agosto de 2004. O filme retrata o delírio dos haitianos em ver os ídolos brasileiros, ao mesmo tempo em que mostra a emoção dos principais jogadores do Brasil: Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos. Mais de 20 anos depois, relembrar o primeiro encontro entre as duas seleções é um convite a enxergar que o futebol brasileiro tem uma carga simbólica enorme e atravessa fronteiras. geRead More


