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Bairro destruído por enchente há quatro meses é coberto de verde e amarelo para Copa do Mundo

Bairro destruído por enchente há quatro meses é coberto de verde e amarelo para Copa do Mundo

Bairro destruído por enchente é coberto de verde e amarelo para Copa em Juiz de Fora
As ruas do Bairro Industrial, na Zona Norte de Juiz de Fora, estão cobertas de verde, amarelo, azul e branco, no clima da Copa do Mundo (assista ao vídeo acima). No entanto, há exatos quatro meses, tudo que havia ali era água, lama e destruição.
O local, que sofre recorrentemente com as enchentes, lidou com a pior cheia da história e foi uma das áreas mais afetadas durante a tragédia que a cidade mineira atravessou a partir do dia 23 de fevereiro de 2026 por causa das chuvas. Ao todo foram 66 mortos e milhares de desabrigados e desalojados.
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Ruas do Bairro Industrial que foram destruídas pelas enchentes são pintadas com cores da seleção brasileira
Reprodução
Só que a máxima de que “depois da tempestade sempre vem a bonança” entrou em campo. Após viverem o luto pelas perdas materiais e da dignidade e retomarem parte da normalidade, os moradores se uniram, arrecadaram dinheiro, mobilizaram mão-de-obra e cobriram a tristeza que existia naquelas ruas, ainda manchadas de barro, com as cores da seleção brasileira.
O Bairro Industrial é tradicionalmente enfeitado às vésperas da Copa do Mundo. No entanto, a destruição causada pelas chuvas entre a última semana de fevereiro e a primeira de março paralisaram qualquer sentimento de alegria naquele lugar.
Apesar de ter registrado nenhuma morte, a área foi arrasada. Muitos moradores perderam tudo ou quase tudo que tinham em casa, tiveram as residências condenadas e precisaram começar a reconstruir as próprias vidas.
Bairro Industrial foi destruído pela enchente após chuvas em fevereiro de 2026
Luiz Belfort
Apesar disso, o tempo passava e a normalidade aos poucos era retomada. Com isso e a proximidade da Copa do Mundo, algumas pessoas resolveram deixar o luto de lado e colorir as ruas – e a vida – com as cores da seleção brasileira.
A mobilização começou com os moradores da Rua Dalila Lery, nas proximidades da pracinha do bairro, um dos pontos mais atingidos pela enchente. Há um mês, Isabela Guimaraes e alguns vizinhos resolveram decorar a rua.
Antes devastada pela chuva, rua Dalila Lery, no Bairro Industrial, em Juiz de Fora, agora está decorada para a Copa do Mundo de 2026
Reprodução
— Compramos os itens, marcamos e decidimos fazer a pintura. A gente decidiu fazer também um churrasco para confraternizar, já que seriam muitas horas de trabalho. Começamos por volta das 9h, terminamos por volta das 18h e depois começamos o churrasco, que foi até as 20h — contou.
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Os moradores da Rua Dalila Lery, assim como os vizinhos da rua do entorno, foram muito afetados pela tragédia e perderam praticamente tudo. Isabela conta que a água chegou a 1,5 metro na casa do avô e atingiu 2 metros nas residências na parte baixa da rua.
Antes devastada pela chuva, rua Dalila Lery, no Bairro Industrial, em Juiz de Fora, agora está decorada para a Copa do Mundo de 2026
Reprodução
“A gente está tentando ressignificar, principalmente para as crianças, que, infelizmente, estão traumatizadas. Algumas estão fazendo até acompanhamento psicológico, porque não foi fácil o que a gente passou. Foram dias muito difíceis”.
A partir do movimento inicial na Dalila Lery, pessoas de outras ruas começaram a se organizar. Grupos foram montados em aplicativos de mensagem para arrecadar recursos, dividir as tarefas e marcar os dias para fazer os desenhos, preenchê-los com pintura e prender as bandeirinhas.
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Lívia Uliano mora em Juiz de Fora há quase 30 anos. Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, ela se considera mais carioca do que mineira. Moradora da parte alta da Rua Tomaz Cameron, a família de Lívia acompanhava o sofrimento dos vizinhos das casas na parte mais baixa da via, mas jamais tinha vivido a experiência de ter a casa invadida pela água e pela lama.
“Transformando dias difíceis em cores, união e alegria” é uma das mensagens desenhadas na Rua Tomaz Cameron
Renata Uliano
Apesar das dificuldades, da tristeza e do prejuízo, Lívia afirma que sempre é possível tirar algo positivo em situações de adversidade.
— Perdemos muitas coisas materiais, mas em compensação ganhamos muitos amigos. A enchente, foi uma experiência muito ruim, pois eu e minha família nunca tínhamos passado por isso. Sentimos na pele o que meus vizinhos sofreram por vários anos. Mas por outro lado fez com que os moradores se unissem mais. Havia pessoas com quem nunca tinha falado antes e que agora falo sempre.
Mobilização foi grande na Rua Tomaz Cameron
Lívia Uliano
“Depois do momento difícil que passamos, vimos o bairro mais unido e pensamos… ‘Nos unimos nos momentos de tristeza, por que não nos unir também nos momentos de alegria?’”.
Lívia conta que a adesão na rua dela foi total, com pessoas mobilizadas para ajudar da maneira como podiam. Além da decoração e da pintura, os vizinhos se organizaram para assistirem aos jogos. Um retroprojetor foi colocado na rua nas primeiras partidas da Seleção.
Vizinhos tem se reunido para assistir aos jogos
Lívia Uliano
— A gente sempre teve o costume de se reunir para pintar as ruas, fazer festas. Cresci vendo e participando disso tudo. Mas esse ano foi diferente. Não eram apenas pessoas da mesma rua, eram moradores do bairro inteiro unidos por um mesmo objetivo.
“Deu mais vontade de resgatar essas memórias e manter viva essa tradição, para que as crianças de hoje possam viver e guardar as mesmas lembranças que marcaram a nossa infância”.
Jaime Moura tem 59 anos e é ainda mais antigo no bairro. Ele se mudou para o Industrial há 54 anos e afirma que jamais viu uma mobilização tão grande das pessoas, nem em torno da ajuda humanitária durante as recorrentes enchentes, nem na decoração para a Copa do Mundo.
Moradores enfeitam ruas do bairro Industrial para a Copa em Juiz de Fora
— Eu cheguei em casa às 22h, com um frio forte, e vi pessoas pintando e decorando a rua. A mesma coisa que aconteceu na mobilização para ajudar um ao outro durante as enchentes, que foram catastróficas, aconteceu neste movimento, de levar alegria para os vizinhos — disse.
“É como se as pessoas ali dissessem: ‘Vamos virar a página do que aconteceu e mostrar que o bairro é unido’. Achei muito bacana”, finalizou.
Rua Tomaz Cameron é uma das mais enfeitadas
Lívia Uliano
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