A seleção mais caótica da Europa? Entenda a Turquia de Montella, Arda Guller e Yildiz
Kosovo 0 x 1 Turquia | Melhores Momentos | Repescagem | Eliminatórias
A seleção turca replica em campo a própria inconstância da carreira de seu treinador.
O italiano Vincenzo Montella construiu uma trajetória marcada por momentos de grande sucesso e períodos de profunda frustração profissional.
Ex-atacante de destaque de Sampdoria, Roma e da Seleção Italiana, Montella teve um início promissor como treinador na Fiorentina. Entre 2012 e 2015, levou o clube a três quartas colocações consecutivas na Serie A e ainda alcançou uma semifinal de Liga Europa.
Depois da ascensão, porém, vieram os tropeços. Montella acumulou trabalhos decepcionantes na Sampdoria, no Milan, no Sevilla e em sua segunda passagem pela Fiorentina. O período de desgaste foi tão grande que o treinador chegou a ficar dois anos sem clube.
Suécia, Rep. Tcheca, Turquia, Iraque e R. D. Congo estão na Copa
A retomada começou em setembro de 2021. Montella assumiu o modesto Adana Demirspor justamente na temporada de retorno da equipe à primeira divisão turca. Fez uma campanha sólida logo no primeiro ano e, na temporada seguinte, conduziu o clube a uma histórica quarta colocação.
O sucesso no futebol turco abriu as portas da seleção nacional.
Na nova missão, o treinador classificou a Seleção Turca para a Eurocopa de 2024, superando a Croácia e terminando na liderança do grupo eliminatório. Depois, levou a equipe até as quartas de final da competição continental, sendo eliminada pela Holanda. Na sequência, veio mais um passo importante: o acesso à elite da Liga das Nações, torneio que começa em setembro deste ano.
Arda Güler fez esse golaço de antes do meio de campo
A oscilação da carreira de Montella ajuda a explicar a identidade da própria Turquia: um time ofensivamente talentoso e empolgante, mas vulnerável sem a bola.
Os jogos da seleção turca raramente são previsíveis. Normalmente são intensos, acelerados e caóticos
Durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, a Turquia sofreu uma dura goleada por 6×0 para a Espanha. No mês seguinte, respondeu atropelando a Bulgária por 6×1 e, quatro dias depois, venceu a Geórgia por 4×1.
Os placares elásticos se tornaram uma marca registrada da equipe. Além desses resultados, houve ainda um empate em 2×2 contra a Espanha e uma vitória por 3×2 sobre a Geórgia — tudo isso apenas na fase de grupos das Eliminatórias Europeias.
A vaga direta para a Copa não veio, mas a Turquia conseguiu sobreviver à repescagem. Curiosamente, em jogos mais controlados. As vitórias por 1×0 sobre Romênia e Kosovo classificaram a seleção mais imprevisível do Mundial.
Turquia 1 x 0 Romênia | Melhores momentos | Semifinal | Repescagem para a Copa de 2026
Força ofensiva
A Turquia conta com pelo menos cinco titulares de enorme capacidade criativa.
Tudo começa com Ferdi Kadıoglu, lateral que participa constantemente da construção pela esquerda e abre espaço para a movimentação de Kenan Yıldız. Partindo da ponta para zonas mais centrais, Yıldız aumenta a superioridade técnica da equipe nos setores decisivos do campo.
O atacante da Juventus é visto como um talento geracional por reunir criatividade, intensidade e maturidade competitiva incomuns para a idade – 21 anos. No futebol italiano, destaca-se pela condução vertical, o drible em espaços curtos e pela inteligência para acelerar o jogo sem perder objetividade. Sua presença devolveu imprevisibilidade ofensiva à Juventus, motivo pelo qual passou a ser comparado à lenda Alessandro Del Piero.
Turquia em preparação para a Copa do Mundo
Turquia.
No meio-campo, o experiente Hakan Çalhanoglu é o cérebro da equipe. Cabe a ele controlar o ritmo das partidas, organizar a circulação da bola e oferecer ameaça constante em bolas paradas e finalizações de média distância.
Pelo lado esquerdo, a seleção concentra mais talento associativo e construção técnica. Pela direita, aposta na agressividade de Yılmaz, atacante de velocidade, força física e explosão.
Tudo isso funciona ao redor de um camisa 10 extremamente criativo e refinado tecnicamente: Arda Guler. O meia viveu sua temporada de consolidação no Real Madrid, ganhando espaço e protagonismo.
Arda é um jogador de raro potencial técnico. Sua principal virtude está na capacidade de controlar o ritmo do jogo com criatividade, visão e precisão quase intuitiva nos passes e finalizações. No Real Madrid, já demonstra refinamento no pé esquerdo e enorme capacidade de decidir jogadas em poucos toques. Não por acaso, surgiu cercado pelo apelido de “Messi Turco” e frequentemente é comparado a Mesut Ozil, outro meia canhoto de perfil clássico.
Além dos titulares, Montella também confia bastante em jogadores como Salih Ozcan, do Borussia Dortmund, e Orkun Kokçu, meio-campista que oferece qualidade na transição ofensiva, boa finalização e excelente passe longo.
A soma dessas qualidades individuais transforma a Turquia em uma equipe de enorme potencial ofensivo, capaz de praticar um futebol moderno, vertical, móvel e extremamente perigoso em transições.
Insegurança defensiva
A força ofensiva da Turquia é quase inversamente proporcional à fragilidade defensiva.
A estrutura de marcação oscila demais dentro das partidas, e seus jogos frequentemente se tornam mais emocionantes do que qualquer treinador gostaria.
Ex-atacante e treinador da Turquia, Vincenzo Montella acena para a torcida local
Ahmad Mora – UEFA/UEFA via Getty Images
Se a equipe é forte nas transições ofensivas, também sofre bastante nos momentos de recomposição, principalmente pelos lados do campo. Soma-se a isso a pouca proteção à frente da área, cenário que deixa os zagueiros constantemente expostos e facilita períodos de pressão adversária.
Montella tem nas mãos uma geração extremamente talentosa — o sonho de qualquer treinador. Ao mesmo tempo, convive com partidas fora de controle, caóticas e imprevisíveis, exatamente o tipo de cenário que costuma tirar o sono de qualquer técnico.
A juventude do elenco ajuda a explicar parte dessa montanha-russa emocional. A equipe parece atuar permanentemente no limite da intensidade, impulsionada por jogadores talentosos, agressivos e com enorme vocação ofensiva, mas que ainda demonstram dificuldade para controlar o ritmo dos jogos e administrar vantagens no placar.
A Turquia joga melhor quando o contexto do jogo exige aceleração, transição e trocas constantes de golpes. Não por acaso, seus desempenhos mais marcantes surgem justamente em partidas abertas e caóticas — o ambiente ideal para que talentos como Arda Guler, Yıldız e Yılmaz desequilibrem individualmente.
Uma coisa parece certa: para quem acompanhar a Copa do Mundo do sofá, poucos times prometem tanto entretenimento quanto a Turquia. geRead More


