RÁDIO BPA

TV BPA

Entenda como o futebol teve função diplomática e aproximou Brasil e Haiti há mais de 20 anos

Entenda como o futebol teve função diplomática e aproximou Brasil e Haiti há mais de 20 anos

História do amistoso beneficente “Jogo da Paz” entre Brasil e Haiti, em 2004
O duelo entre Brasil e Haiti, às 21h30 (horário de Brasília) desta sexta-feira, colocará frente a frente duas seleções com histórico de amizade. Por muitos anos, a população haitiana nutriu fortes carinho e torcida pela seleção pentacampeã, e a relação entre os países já teve o futebol como ferramenta diplomática. Em 2004, a capital Porto Príncipe recebeu amistoso que ajudou a divulgar uma missão de paz no país do Caribe.
+ Veja a tabela da Copa do Mundo
No início de 2004, o Haiti vivia uma grave crise política que culminou na deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide. Meses depois, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou a Minustah: Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti.
O Brasil, que buscava maior influência política internacional e uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, liderou a missão e mandou o maior contingente de tropas.
+ Simulador: como será a caminhada de cada seleção?
Seleção brasileira enfrentou Haiti em amistoso “Jogo da Paz”, em 2004
Arquivo CBF
Como forma de promover a Minustah entre a população local, o governo brasileiro organizou uma partida entre as seleções de Brasil e Haiti – o chamado “Jogo da Paz”. Paralelamente ao amistoso, foi promovida uma campanha de desarmamento no país caribenho.
A seleção brasileira chegou ao Haiti no posto de atual campeã da Copa do Mundo, dois anos depois do pentacampeonato em 2002. A comitiva, inclusive, levou o troféu do Mundial para o Haiti.
— Eu não tenho nenhuma lembrança pessoal desse jogo porque não tinha TV, nem eletricidade onde eu morava. Mas sei que aquilo foi um grande momento para o país. Eles nunca tinham visto nenhum daqueles jogadores pessoalmente, nem os assistido jogar de perto, então o fato de eles terem ido ao Haiti para jogar significou muito — disse Frantzdy Pierrot, atacante do Haiti, ao ge )a entrevista completa vai ao ar nesta sexta-feira).
Não faltou festa nas poucas horas que o a seleção brasileira passou em Porto Príncipe. Do aeroporto até o estádio Sylvio Cator, uma multidão recebeu nomes como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos, que desfilaram em carros blindados do tipo urutu.
Seleção brasileira chega ao Haiti para “Jogo da Paz” em 2004
Arquivo CBF
— País em guerra civil, muita gente sofrendo, uma pobreza extrema. Sabíamos mais ou menos o cenário, mas ficamos muito surpresos por chegar e ver aquela multidão esperando a gente. Lembro de ter entrado em um daqueles blindados junto com o Ronaldo e o pessoal campeão em 2002. Os olhares do povo, reconhecendo o tamanho de cada jogador que estava ali. Foi muito gratificante e marcante. Um calor absurdo, víamos contêineres espalhados, favelas, pessoas comendo na rua. Um contraste absurdo. Um amor, uma paixão, mas sabendo que aquele povo estava passando muitas necessidades — contou Roger Flores, comentarista do Grupo Globo e autor de dois gols no jogo, ao ge.
Nem todos os nomes chamados pela seleção brasileira, no entanto, participaram do amistoso: o Milan travou a ida de Dida, Cafu e Kaká, enquanto o Bayern de Munique não liberou Lúcio e Zé Roberto.
Então primeiro-ministro do Haiti, Gerard Latortue chegou a oferecer US$ 1 mil aos jogadores que superassem o gol de Júlio César. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assistiu ao amistoso na capital caribenha, havia pedido que o Brasil evitasse uma vitória por um placar muito elástico.
A Seleção comandada por Carlos Alberto Parreira acabou goleando por 6 a 0: Ronaldinho Gaúcho marcou um hat-trick, Roger fez dois, e Nilmar anotou o último gol do amistoso.
— Nenhum estádio no mundo teria capacidade para colocar toda aquela gente do Haiti que gostaria de ver o jogo. (…) Fiz dois gols naquela partida e o povo comemorou como se fosse gol da seleção do Haiti. Ali, eles estavam saboreando, curtindo aquele momento da ver a seleção brasileira. Claro que se sentiram representados pelos jogadores do Haiti, mas o que eles queriam ver era um show e um espetáculo da seleção brasileira. Acho que demos isso a eles. O que mais importou foi o dia marcante, (…) e poder ter dado a eles um dia de paz, alegre, feliz. Isso que fica mais marcado na minha memória, muito mais do que a camisa 10, os gols e o jogo — completou Roger.
Brasil x Haiti, no Jogo da Paz, em 2004
Nilton Santos/CBF
O grupo deixou o Haiti logo após a realização do amistoso, mas a presença da seleção brasileira em Porto Príncipe deixa marcas e memórias felizes até os dias de hoje.
— Essa é uma das razões pelas quais os haitianos sempre apoiam o seu país, mas também sempre vão demonstrar carinho pela seleção brasileira. É por causa do que ela foi capaz de fazer, indo ao Haiti, sabendo que poderia haver algum risco ou qualquer que fosse a situação, mas mesmo assim aparecendo e tentando fazer as pessoas felizes. Eu sei que muitos haitianos valorizam muito isso — completou Pierrot.
Liderada pelo Brasil, a Minustah durou 13 anos, tendo sido descontinuada em outubro de 2017. O saldo da missão de paz foi controverso, com denúncias ligadas à violação de direitos humanos, episódios de abuso sexual e até a introdução da bactéria causadora da cólera no Haiti. Anos depois, a ONU mudou as regras de missões no país.
Brasil e Haiti estão no grupo C da Copa do Mundo, mesma chave de Marrocos e Escócia. A classificação haitiana marca o retorno do país ao Mundial pela primeira vez desde 1974. geRead More