Na Bancada da Copa do Caos – Edição 001
Vai começar a Copa do Mundo FIFA 2026 Canadá, Estados Unidos e México e, para tanto, o blog vai adotar um formato inédito.
Até o final do torneio, no dia 19 de julho, manteremos o mesmo formato, com parcerias especiais e a mesma pegada na análise sobre o que ocorre no futebol – sem falar de futebol em si. Bastidores, questões políticas, acontecimentos nas arquibancadas e o que mais convier, seguirão no foco.
Sempre às terças e às sextas, uma nova edição do “Na Bancada na Copa do Caos” vai destacar os fatos mais relevantes, indicar os detalhes mais interessantes dos confrontos que se avizinham e recomendar leituras para estudar o futebol entre um jogo e outro – e enquanto não tem jogo nos estádios brasileiros.
O nome da série é baseado em um texto recente sobre as controvérsias da Copa de 2026. Além de uma introdução mais factual, os conteúdos contarão com três partes obrigatórias.
Primeiro, na seção Na Bancada, serão comentados os destaques do público das arquibancadas e das prévias dos jogos (ou mesmo a ausência deles, se levarmos em conta o preço dos ingressos). Manifestações políticas, festas bonitas, ausências marcantes e possíveis confusões serão analisadas no formato já tradicional do blog.
Em seguida, em parceria com o projeto Copa Além da Copa, entregaremos o que eles fazem de melhor: destacar controvérsias e fatos históricos por trás dos jogos e da Copa. Com a ajuda de Aurélio Araújo e Carlos Massari, falaremos dos personagens, das contendas políticas, das questões sociais e políticas do passado e do presente que entram em campo junto com as camisas das “nações”.
Para fechar, um compromisso social! Em parceria com o Ludopédio, o maior portal de produção e divulgação científica sobre futebol da América Latina, vamos recomendar leituras de livros e teses para aprender a “ler o jogo”. Com a curadoria de Victor Figols, Marco Lourenço, Sergio Giglio e Enrico Spaggiari, destacaremos o que há de melhor na literatura brasileira e internacional sobre futebol, sempre ligados nos fatos correntes.
Todas terças e sextas!
Na Bancada
Antes mesmo da bola rolar, a Copa do Mundo de 2026 já estava marcada pela previsível polêmica da entrada nos Estados Unidos: profissionais de imprensa, jogadores e até um árbitro FIFA, o somali Omar Artan, considerado o melhor do continente africano, foram barrados e retornaram para suas casas.
Mas os casos provavelmente vão se multiplicar nos próximos dias, quando torcedores de diversos países começarem a enfrentar os mesmos problemas. Algo que já aconteceu com aquela que seria provavelmente a melhor (talvez a única boa) torcida nas arquibancadas dessa Copa do Mundo.
De acordo com o site Hespress, 40 dos 42 membros da associação oficial de torcedores da seleção de Marrocos tiveram seus vistos negados. Azzedine Al Attaraoui, líder do grupo, afirmou que cada torcedor terá prejuízos de 1500 dólares apenas nos ingressos já adquiridos, para além das muitas diárias com valores entre 400 e 1000 dólares.
Ainda de acordo com Attaraoui, as negativas não foram justificadas a contento e todos os torcedores atendiam aos requisitos para a viagem, como a posse de ingressos, comprovantes de hospedagem e passagens de retorno.
O grupo Sbouaa, famoso pela articulação e preparação das festas da seleção marroquina, também declarou que diversos dos seus membros foram impedidos de viajar. Dos 50 representantes que se prepararam para o evento, apenas 6 tiveram seus vistos aprovados.
Mourad Hamana, fundador do Sbouaa, afirmou que, em diversos casos, as negativas foram justificadas sob o “Section 214” – que indica que os oficiais do consulado não foram convencidos de que os viajantes teriam a pretensão de retornar ao país. Os membros alegam que possuem vida estável no Marrocos e não teriam qualquer intenção em migrar.
Os dois grupos também alegaram ter buscado auxílio das autoridades marroquinas, que teriam auxiliado na viagem para a Copa do Mundo sub-20 de 2025, que ocorreu no Chile – e da qual Marrocos saiu campeão.
Tanto a associação oficial, quanto o Sbouaa, estiveram presentes na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e na Copa do Mundo de 2022, no Catar; onde se destacaram, juntos aos vizinhos da Argélia, como uma das torcidas mais vibrantes de toda competição, que encheram de cor as arquibancadas, com bandeiras, sinalizadores e cânticos dos mais ruidosos.
Caso não consigam reverter a tempo (o que parece o mais provável), a ausência de Marrocos será sentida nos jogos contra o Brasil (Nova York/Nova Jersey); contra a Escócia (Boston/Foxboroug) e Haiti (Atlanta).
A negativa da entrada do árbitro somali Omar Artan será sem dúvidas o ápice de uma série de humilhações que a FIFA já sofreu e ainda sofrerá do governo Trump ao longo dessa Copa. As diversas visitas à Casa Branca, a patética entrega do “prêmio da paz” e a presença constante de Gianni Infantino em eventos políticos do MAGA foram só as prévias do que ainda pode vir.
A Copa Além da Copa
Se toda problemática da entrada dos estrangeiros nos Estados Unidos para a Copa do Mundo já era tão conhecida, por que a FIFA não agiu para garantir que “o mundo” estivesse presente na Copa? Porque a FIFA está, há pelo menos 10 anos, sujeita a uma imensa pressão dos Estados Unidos.
Não era a FIFA de Gianni Infatino, tampouco os Estado Unidos de Donald Trump, mas na década passada as placas tectônicas do futebol global foram severamente abaladas após o chamado FIFAgate. É o que o Copa Além da Copa relembra em uma publicação recente.
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As campanhas derrotadas para sediar as Copas passadas incitaram uma ofensiva inédita dos Estados Unidos, enquanto estado acostumado a interferir em tudo o que deseja. Mais de 30 réus, incluindo ex-presidentes da CBF, foram acusados de operar um “esquema de corrupção privada”, extorsão e lavagem de dinheiro.
Após investigação do Departamento Federal de Investigação (FBI), e através da acusação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, revelou-se um esquema de corrupção que envolveu mais 150 milhões de dólares em subornos e propina, para a garantia da aquisição dos direitos de transmissão das Copas por empresas privadas norte-americanas.
Posteriormente, diversos dirigentes foram acusados de receber propinas para votar a favor da candidatura do Catar para a Copa de 2022. A conquista da sede de 2026 pelos Estados Unidos, definida em 2018, apesar dos convidados México e Canadá, foi o desfecho desejado para todo aquele movimento.
Em fevereiro do ano passado, Trump assinou uma ordem executiva de suspensão da aplicação da Lei de Prática de Corrupção no Exterior, justamente aquela que busca punir empresas americanas acusadas de subornar autoridades estrangeiras. Medida essa que pode gerar revisões em todos os casos do FIFAgate.
Em tempo: tudo isso tem muito a ver com a expansão das redes multiclubes na atualidade, uma vez que a motivação de muitos grupos financeiros norte-americanos foi a tese da “sinergia” que a Copa geraria com a aquisição de diversos clubes ao redor do planeta. Mais de 120 de clubes estão envolvidos em redes controladas por norte-americanos, inclusive no Brasil.
Ludopédio – para ler o jogo
Como combinado, seguem duas sugestões de leituras diretamente do time do Ludopédio, para começar essa Copa do Mundo (e seguir até onde for preciso). A primeira se relaciona com o tema dessa edição e a segunda serve para dar uma animada na torcida para o Brasilzão.
A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974)
Luiz Guilherme Burlamaqui – USP-Capes/Intermeios (2020)
O que e quem fez a FIFA ser a FIFA que conhecemos hoje? Esta é uma das perguntas que Luiz Guilherme Burlamaqui busca responder no livro “A Dança das Cadeiras: A eleição de João Havelange à presidência da FIFA”. Um dirigente brasileiro conseguiu derrubar o status quo europeu que dominava o futebol mundial há décadas. O historiador Burlamaqui analisa as alianças que João Havelange construiu com os países Ásia, África e Oriente Médio, mostrando que a sua eleição era também uma disputa política. A campanha de Havelange se insere no contexto da Guerra Fria e da Ditadura Militar, e contou com a articulação de setores militares e da elite, revelando que havia um projeto político por trás da sua candidatura. Sugerir esta leitura na abertura da Copa é lembrar que o torneio não acontece à margem do mundo – ele é um reflexo das relações de força, das alianças geopolíticas e dos interesses que estão além das quatro linhas.
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O futebol brasileiro: Instituição zero
Simoni Lahud Guedes – Editora Ludopédio (2023)
O Futebol Brasileiro: Instituição Zero foi a primeira dissertação em Ciências Sociais sobre futebol no país e a primeira pesquisa antropológica sobre o esporte na América Latina realizada por uma mulher, em 1977, em plena Ditadura Militar. Por décadas, o manuscrito original se encontrava na biblioteca do Museu Nacional, até ser destruído no incêndio de 2018. Simoni Lahud Guedes (in memoriam) foi a primeira pesquisadora a pensar o futebol brasileiro não apenas como uma prática social ou um espetáculo, mas como uma representação da nação. Percorrendo os discursos da imprensa sobre as Copas do Mundo, em especial a derrota traumática de 1950 e o tricampeonato em 1970, Simoni mostra a carga simbólica da seleção brasileira e do próprio Brasil. Quando a seleção entra em campo, não são apenas os onze jogadores que disputam a partida, é a própria nação ali representada. Sugerir esta leitura para a estreia do Brasil na Copa é um convite a (re)pensar o que faz do Brasil o “país do futebol”. geRead More


