Na Bancada da Copa do Caos – Edição 002
A Copa da Diáspora – depois que o jovem Yasin Ayari, da Suécia, evitou comemorar o golaço que abriu a goledada de 5 a 1 contra a Tunísia, voltou a ganhar destaque o assunto das migrações, imigrações, ascedências e descedências no futebol atual.
Ayari é muçulmano, nascido na Suécia, filho de um tunisiano com uma mãe marroquina. Foi incentivado pelo pai a tentar a vaga da seleção do seu país de nascimento, recusando convites do país do seu genitor. Mais um de muitos casos notáveis das últimas copas.
O gesto de Ayari, ao levantar os braços após o gol e demonstrar respeito pela Tunísia, não foi inédito: na Copa passada, o suíço Breel Embolo também repetiu o gesto contra Camarões. Embolo nasceu em Yaoundé, capital do país africano, a qual deixou aos 5 anos com a mãe, rumo à Europa.
Ainda nessa primeira rodada, também foi destaque o atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, que nasceu no país por “acaso”, pois sua mãe nigeriana estava a passeio em Nova Iorque e, com gravidez avançada, foi impedida de tomar o voo de volta para Londres, onde residia. Por lá, Balogun se profissionalizou, mas depois optou por defender a seleção norte-americana, sua também “por direito”.
Casos relativamente distintos entre si, que ilustram o complexo cenário das multinacionalidades dos jogadores da Copa do Mundo. Um fenômeno tão empolgante quanto perigoso – porque é comumente usado como bandeira política pelas extremas-direitas europeias, que usam o tema da imigração como plataforma eleitoral de forma recorrente.
O assunto não é exatamente novo. O autor deste blog tratou disso num artigo ainda em 2018, observando a ideia de “renaturalização”: uma escolha quase sempre pragmática e profissional, quando jogadores – em sua maioria filhos ou netos de africanos que migraram para países europeus – optam por jogar pela seleção de um país onde não nasceram.
O que observou-se em “Negros e árabes da Copa do Mundo: apontamentos sobre nacionalidade e migrações no futebol”, é que são bem mais raros os casos de jogadores “estrangeiros” ou “convidados à naturalização”, do que de jogadores que já detém dupla ou tripla nacionalidade e aproveitam desse direito para atuar na Copa do Mundo em uma seleção onde há espaço para o seu talento.
Um levantamento feito pelo jornalista equatoriano Jaime Macias (@jaimefmacias), para a edição de 2026, traz a proporção da multinacionalidade no futebol atual. Apenas de nascidos na França, poderão ser vistos jogadores atuando por Argélia (13), Costa do Marfim (8), Haiti (12), Marrocos (6, com mais 6 espanhóis), RD Congo (11, com mais 5 belgas), Senegal (10) e Tunísia (7). Há ainda em Cabo Verde (3), Catar (1), Espanha (1), Egito (1) e Gana (3).
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Aliás, Senegal e França se enfrentarão nesta terça (15) e dois jogadores da seleção francesa possuem origens senegalesas – Dayot Upamecano e Ousmane Dembélé. Outros dez jogadores são filhos de imigrantes oriundos de países da África Ocidental. Quatro tem pais nascidos no Norte da África. Cinco jogadores têm raízes no Caribe. Apenas Brice Samba nasceu fora da França, mais precisamente no RD Congo.
Na Bancada
O Milagre da Multiplicação dos Torcedores – não está claro ainda, mas a expectativa de que os estádios estivessem meio vazios nesta Copa não se consumou. Os altos valores dos ingressos, causados pela política de preços dinâmicos e potencializados pelo sistema oficial de cambismo patrocinado pela FIFA, dentro do seu próprio site, não foi capaz criar imagens feias nas arquibancadas.
O jogo entre Coreia do Sul e República Tcheca até ficou marcado por um número expressivo de assentos ociosos no setor mais visível pela transmissão, causando grande questionamento quanto ao público oficial divulgado pela FIFA: 44.985 espectadores, em um estádio com capacidade para 45.664 pessoas.
As imagens levantaram a suspeita de que algo parecido voltaria a acontecer nas partidas seguintes. Às vésperas do início da Copa, o renomado Financial Times divulgou que quase 180 mil ingressos para jogos da fase de grupos continuavam disponíveis na plataforma oficial de revenda da FIFA. Ao menos nas primeiras rodadas, a ocupação pareceu bastante satisfatória.
Ainda não há um levantamento preciso sobre como os ingressos acabaram sendo acessados, até porque há pouca transparência sobre esses números. Nos próximos dias provavelmente serão divulgadas histórias sobre os valores finais – se foram comprados pelos preços exorbitantes de poucos dias atrás, ou se baratearam na véspera. Por outro lado, diversas localidades concederam ingressos a preços populares ou concederam entradas em campanhas de doação de sangue, o que pode ter ajudado.
De todo modo, muitas festas bonitas já foram vistas na rodada inaugural. Apesar dos problemas na entrada, como registramos na edição anterior do blog, a torcida de Marrrocos entregou o que se esperava dela na partida contra o Brasil.
Costa do Marfim, mais uma nacionalidade prejudicada na imigração, também chamou atenção na vitória contra Equador, que também esteve em grande número. Outro destaque ficou por conta do volume de torcedores no confronto entre Holanda e Japão, seleções famosas pela alta presença e padronização.
Mas nenhuma deverá chamar tanta atenção quanto o “Tartan Army”, como se chama a torcida da Escócia. Famosa pelo fanatismo e pelos hábitos boêmios dos torcedores britânicos, os escoceses tomaram as ruas de Boston e, inclusive, o jogo de baseball dos famosos Red Sox – o que gerou cenas hilárias de escoceses embriagados fazendo festa em um ambiente famoso pelo silêncio e passividade dos seus ocupantes.
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A Copa Além da Copa
O Irã entrou em campo e fez um dos jogos mais maneiros de uma Copa cheia de jogos maneiros. Dois a dois contra uma Nova Zelândia bem mais arrumadinha do que se imaginava. Trocação franca, todos os gols com a bola rolando, bem jogado até o final.
A segunda-feira futeboleira acabaria com uma certa tensão pela possibilidade de abandono de campo pela seleção do Irã. Autoridades do país declararam publicamente que instruíram jogadores e comissão técnica a não tolerarem protestos contra o regime – que geralmente acompanham a versão anterior da bandeira nacional (com um sol e um leão).
Essa versão da bandeira esteve presente aos montes fora e dentro do estádio – apesar do anunciado banimento do seu uso por violar a regra da FIFA que proíbe manifestações políticas na Copa. A partida ocorreu justamente na região metropolitana de Los Angeles, onde está a maior comunidade imigrante iraniana do planeta.
Mas quem pode nos contar melhor são os parceiros do Copa Além da Copa.
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Vale lembrar que a seleção do Irã só confirmou sua presença menos de um mês para a Copa, além de ter encarado uma série de problemas: precisou mudar seu centro de treinamento para Tijuana, no México, que estava inicialmente planejado para Tucson, no Arizona.
Além disso, os jogadores já tiveram que deixar o país logo após a partida, como parte do “acordo” costurado entre FIFA, Estados Unidos e Federação Iraniana. O Irã voltará para Los Angeles para encarar a Bélgica e encerrará sua participação na fase de grupos em Seattle.
Apesar dos 26 jogadores estarem autorizados, o presidente da Federação de Futebol do Irã, Mehdi Taj, teve o pedido de visto negado pelas autoridades americanas, junto com alguns outros membros dos staff.
Ludopédio – para ler o jogo
Nova edição, mais dicas preciosas de leituras para entender o futebol, um oferecimento dos amigos do Ludopédio.
Rostos Cobertos, Corações à Mostra: futebol, autonomia e luta zapatista
Organizado por Micael Zaramella – Sobinfluencia Edições e Autonomia Literária (2024)
Antes da abertura da Copa do Mundo no México, o porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), o Subcomandante Marcos, emitiu o seguinte comunicado: “O mais importante deste Mundial acontecerá fora dos estádios, onde não haverá espetáculo, mas memória, luta, resistência e rebeldia”. Carregado de críticas aos dirigentes da FIFA e às federações nacionais por terem transformado o futebol em um espetáculo excludente, cada vez mais distante da realidade do povo. Enquanto a bola rolava para México e África do Sul, milhares de mexicanos saíram às ruas para protestar. Familiares de pessoas desaparecidas lembraram que há mais de 130 mil casos. Os manifestantes aproveitaram para protestar contra a FIFA e o governo, contra a gentrificação, os altos investimentos na Copa e a violência. Apesar do tom crítico, o comunicado do Subcomandante Marcos também apontava para um outro caminho: o futebol pode ser resistência. Organizado pelo historiador Micael Zaramella, o livro Rostos Cobertos, Corações à Mostra reúne textos zapatistas que revelam exatamente esse outro lado da bola, mostrando que é possível aliar o comprometimento com a luta por um mundo mais justo e a paixão pelo futebol.
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História Mínima do Futebol na América Latina
Pablo Alabarces – Editora Ludopédio (2022)
O futebol nos faz latino-americanos? A resposta não é direta e simples. Segundo o sociólogo argentino Pablo Alabarces, a história do futebol latino-americano é complexa, fragmentada, com rupturas e com um desenvolvimento heterogêneo, e a própria ideia de unidade é uma invenção. Porém, o que nos une é a diversidade. Percorrer o futebol no subcontinente é um convite a reconhecer o futebol latino-americano como fenômeno social, cultural, político e econômico. Das origens no século passado ao desenvolvimento contemporâneo, o autor examina as diferentes formas de jogar e torcer, e mostra como o futebol se popularizou em cada país. Na estreia das seleções latino-americanas nesta Copa, sugerimos a leitura de História Mínima do Futebol na América Latina como uma forma de reivindicar a nossa identidade local, mas também a nossa identidade latino-americana – aquilo que nos faz brasileiros, argentinos, uruguaios, paraguaios, colombianos, equatorianos etc., e, acima de tudo, aquilo que nos une. geRead More


