O Brasil não foi brilhante contra o Haiti, mas pode ter encontrado um norte
Pensando no futuro da seleção brasileira na Copa do Mundo, o que uma vitória sobre o Haiti poderia oferecer além dos três pontos? Na situação vivida pelo time de Ancelotti, que chegou ao Mundial como uma equipe em formação, tão importante quanto ganhar o jogo era encontrar um norte, uma base sobre a qual poderia se estruturar. Neste ponto, é bem possível que o primeiro tempo tenha oferecido à comissão técnica algo para se apegar.
Claro que toda avaliação precisa levar em conta que o Haiti, além de frágil, propôs um jogo que o expôs ainda mais: a linha defensiva adiantada, mesmo sem pressão sobre o jogador brasileiro que tinha a bola, era um convite aos passes em profundidade, buscando os espaços às costas dos defensores. E ainda que, mesmo diante de certa facilidade, a atuação do time brasileiro tenha sido distante do ideal, ao menos se viu um sistema coerente com os jogadores escalados. Não havia a sensação, como em outras partidas, de que havia jogadores desconfortáveis com as funções que deveriam executar.
Brasil x Haiti – Melhores Momentos
Se no papel era possível enxergar o Brasil num 4-3-3, a função de Matheus Cunha era a chave para compreender o novo funcionamento da seleção. Quando o time atacava, ele recuava alguns metros, e se tornava o vértice mais avançado de um losango que, por trás, tinha Casemiro como primeiro volante, e Bruno Guimarães e Paquetá como meias. A ideia era que Raphinha e Vinícius Júnior, os dois pontas, tivessem liberdade de movimentação e, principalmente, capacidade de ataque à área.
A execução não foi brilhante, nem mesmo num primeiro tempo que terminou 3 a 0. De todo modo, o sistema não parece sacrificar as individualidades. Cunha é o jogador mais adequado para este papel híbrido de atacante e meia. E sua atuação foi muito boa. Vinícius também jogou muito bem, enquanto Raphinha, até se lesionar, foi acionado mais vezes no contexto que o favorece: ataques à área em diagonal, bolas em profundidade. Da mesma forma, os laterais Danilo e Douglas Santos, que alternavam subidas, não se desgastavam tanto.
Ocorre que os espaços que o Haiti oferecia por trás de seus zagueiros induziam o Brasil à precipitação. O time apressava ataques, articulava pouco, lançava a bola antes da hora. O jogo terminou com oito impedimentos da seleção. Outro detalhe foi a forma como o time construiu seus gols, quase sempre em recuperações de bola que geraram transições rápidas. Este ainda é um time que encontra sua melhor versão quando pode realizar ataques rápidos. Ocorre que muitos times vão esperar o Brasil, sem oferecer tantos espaços.
Outro debate importante é a questão defensiva. Com Paquetá atuando como meia mais à esquerda, e também responsável pela recomposição por aquele lado, pareceu mais natural que o Brasil formasse o seu 4-4-2 defensivo. No primeiro tempo, o Haiti não finalizou, embora a seleção precisa ser testada contra um adversário de nível maior.
De todo modo, os 3 a 0 da etapa inicial davam a tranquilidade que este time buscava. E que só não foi completa por causa das dúvidas que cercam a contusão de Raphinha, substituído ainda antes do intervalo por Rayan. Aliás, a função do atacante do Barcelona cria, ainda, um cenário mais convidativo para Endrick. Ele acabou entrando na segunda etapa e fez um gol anulado, mas o Brasil já adotava uma formação diferente da inicial.
Antes dos 20 minutos da etapa final, Ancelotti trocou Paquetá por Martinelli, além da entrada de Endrick na vaga de Matheus Cunha. O time perdeu o que tinha de articulação, de troca de passes. E abraçou definitivamente os contragolpes e os ataques em velocidade. Voltou a jogar mal e, durante o segundo tempo, só finalizou duas vezes contra sete dos haitianos. Na primeira etapa, o time não permitiu que o adversário fizesse um só arremate.
Não foi uma atuação de sonhos mas, a partir de agora, quando debatermos o futuro da seleção, parece que teremos um ponto de partida mais consistente. Isto, é claro, caso Ancelotti decida fazer do time que enfrentou o Haiti a base de sua obra neste Copa do Mundo. Mesmo num jogo distante do ideal, ele terá argumentos para isso. geRead More


